Uma rede formada por quatro mulheres atuou de forma clandestina em Feira de Santana, na Bahia, durante aproximadamente duas décadas — das anos 1980 até o início dos anos 2000 — entregando bebês recém-nascidos a famílias que desejavam adotar. O grupo ficou conhecido como "Cegonhas da Noite", embora nem todas as entregas acontecessem à noite. Os bebês eram deixados em cestas ou caixas de papelão, muitas vezes acompanhados de cartas, nas portas das casas escolhidas pelo grupo.
Segundo reportagem do G1, estimativas de relatos colhidos apontam que mais de dois mil bebês podem ter sido distribuídos pelo esquema ao longo dos anos. Um levantamento publicado pelo jornal A Tarde já havia mencionado a marca de 1.100 crianças. Não há números oficiais sobre a atuação da rede.
O esquema funcionava pelo boca a boca. Quem queria adotar não entrava em contato direto com as mulheres: o pedido era feito por intermediários, como parentes ou amigos de confiança. As "cegonhas" mantinham uma espécie de lista informal de interessados e, quando um bebê estava disponível, avaliavam as condições da família antes de fazer a entrega. A procura, segundo relatos, era maior do que a oferta.
Parte dos bebês era entregue voluntariamente por gestantes em situação de vulnerabilidade social que afirmavam não ter condições de criar os filhos. Mas há pessoas que suspeitam ter sido separadas das famílias biológicas sem consentimento — o que torna a história mais complexa do que uma simples rede de solidariedade.
De acordo com o G1, a prática chegou ao fim após a intervenção de um juiz que ameaçou de prisão quem se envolvesse com o esquema alternativo de adoção. O processo legal à época exigia supervisão judicial em todos os casos, e as cegonhas agiam sem qualquer intermediação do Estado. Apesar disso, não foram encontrados registros de ações judiciais formais contra as integrantes do grupo, nem investigações do Ministério Público da Bahia sobre o caso.
Um dos casos mais conhecidos é o de Lausanne de Oliveira Vicentin, analista administrativa de 36 anos nascida em Feira de Santana. Lausanne foi deixada na porta da casa de sua mãe adotiva, em uma caixinha com um bilhete. Segundo informações divulgadas pelo portal Acorda Cidade, as pistas sobre sua origem indicam que ela seria filha de uma empregada doméstica que trabalhava na casa de uma suposta enfermeira, e que essa enfermeira, para não perder a mão de obra da mãe biológica, teria entregado o bebê para adoção.
Lausanne esclareceu que não está em busca de culpados, e sim de entender a origem da própria história e os motivos que levaram os pais biológicos a tomarem a decisão de entregá-la para adoção. O desejo de descobrir quem são os pais biológicos estava adormecido e se intensificou após ela ter o primeiro filho. A maternidade fez com que ela voltasse a se questionar sobre quais motivos poderiam ter levado uma mãe a abandonar o próprio filho.
O caso das Cegonhas da Noite existe em um contexto mais amplo de adoções irregulares no Brasil das décadas de 1980 e 1990. Uma quadrilha especializada no tráfico de bebês brasileiros para adoção ilegal no exterior operou em diversas regiões do país durante a década de 1980. Na Bahia, o esquema envolvia uma rede que incluía assistentes sociais, advogados, escrivães e até juízes, que atuavam em diferentes regiões do estado. O caso de Feira de Santana, no entanto, tinha características distintas: não havia cobrança financeira e as crianças permaneciam no país.
Hoje, um grupo de pessoas adotadas pelo esquema se mobiliza nas redes sociais em busca de informações sobre suas origens. Com documentação forjada, registros inexistentes e papéis envelhecidos com as décadas, são poucas as chances de encontrar as famílias biológicas. Mesmo assim, a busca continua — e cada história revelada puxa o fio de outras tantas que ainda aguardam resposta.







