A mãe de Tainara Souza Santos, a vendedora de 31 anos atropelada e arrastada por cerca de 1 quilômetro na Marginal Tietê em São Paulo, guardou um segredo por meses: a filha havia acordado do coma e conversado com ela por dez dias antes de morrer. A revelação inédita foi feita por Lúcia Aparecida Souza da Silva à TV Globo, pouco antes de a Justiça decidir que o acusado, Douglas Alves da Silva, irá a júri popular por feminicídio.
Segundo Lúcia, nem a família sabia do despertar de Tainara. A mãe optou por guardar o momento só para si, respeitando o que a filha atravessava no hospital. Ao acordar, Tainara perguntou pelos filhos e pela mãe. Logo em seguida, demonstrou consciência plena do que havia acontecido com seu corpo: "Mãe, eu sei o que aconteceu. Estou sem as minhas pernas, né? Fui arrastada pelo carro."
Mesmo diante da gravidade do quadro clínico e ciente das cirurgias que ainda viriam, Tainara não desistiu. "Vou lutar, mãe. Isso vai ser pelos meus filhos e por você", disse, segundo o relato de Lúcia. A vendedora deixou um filho de 12 anos e uma filha de 7.
Durante as conversas no hospital, Lúcia questionou a filha sobre o acusado — que, ao ser preso, afirmou não conhecer Tainara. A resposta foi direta: "Ele não me conhece? Espera só eu sair daqui para ver se ele não me conhece."
Tainara pediu ainda que os filhos não a visitassem naquelas condições. A mãe respeitou o desejo. Lúcia só conseguiu falar sobre esses momentos recentemente, durante a audiência de instrução realizada no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. "Eu queria tirar aquela dor do peito olhando para ele e falando tudo o que eu tinha guardado dentro de mim", disse, referindo-se a Douglas.
Apesar da dor, Lúcia também expressou gratidão. "Eu me sinto abençoada por ter visto ela acordada e conversando comigo durante dez dias", afirmou.
Tainara morreu em 24 de dezembro de 2025, véspera de Natal, após quase um mês internada no Hospital das Clínicas. Ela havia sido atropelada em 29 de novembro e teve as duas pernas amputadas. A causa da morte incluiu septicemia e desarticulação de quadril.
Em 25 de maio de 2026, a Justiça de São Paulo decidiu que Douglas, de 26 anos, deve ir a júri popular. Ele é réu por feminicídio e tentativa de homicídio contra um amigo de Tainara. A defesa contesta a qualificação do crime. Se condenado, a pena pode variar de 20 a 40 anos de prisão.








