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Polícia

Jovem morto por leoa foi enterrado na presença de 2 familiares

Vaqueirinho, morto por leoa ao invadir zoológico em João Pessoa, é sepultado em cerimônia simples após vida marcada por transtorno mental e abandono.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
02 de dezembro, 2025 · 14:00 6 min de leitura
Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

O corpo de Gerson de Melo Machado, 19 anos, conhecido como “Vaqueirinho”, foi sepultado no início da semana no Cemitério do Cristo, em João Pessoa (PB), em um funeral rápido e com presença de apenas dois familiares: a mãe, Maria da Penha Machado, e uma prima. O enterro encerra um caso que expôs não apenas as circunstâncias da morte do jovem, atacado por uma leoa no zoológico da capital paraibana, mas também uma trajetória marcada por vulnerabilidade social, transtorno mental e sucessivas falhas na rede de proteção.

Como foi o ataque no zoológico

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Gerson morreu na manhã de 30 de novembro, após invadir o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, conhecido como Bica, em João Pessoa. De acordo com a Prefeitura e com o Instituto de Polícia Científica, o jovem escalou uma parede de cerca de 6 metros, ultrapassou grades de segurança, utilizou uma árvore como apoio e entrou no espaço onde o animal se encontrava.

Vídeos feitos por visitantes e divulgados em redes sociais mostram o momento em que o jovem aparece no alto da estrutura lateral, se desloca pela cerca, desce pela árvore e, em seguida, é alcançado pela leoa, que avança quando ele toca o chão. Nas imagens, é possível ouvir gritos e pedidos para que ele desistisse de entrar no recinto.

Após o ataque, o parque foi esvaziado e fechado para visitação, decisão mantida enquanto avançam as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam).

Laudo do IML

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Laudo inicial do Instituto Médico Legal (IML) apontou que a morte de Gerson foi provocada por choque hemorrágico decorrente do perfuramento de vasos cervicais na região do pescoço, compatível com a mordida da leoa. O documento também ressalta que o animal não se alimentou do corpo da vítima.

Além da necropsia, o IML realizou exame toxicológico e procedimentos de identificação técnica, cujos resultados complementares devem integrar o inquérito que apura as circunstâncias do episódio.

Segundo relatos da Prefeitura e da Polícia Civil, a perícia trabalha com a possibilidade de que a ação tenha ocorrido em um contexto de autoexposição extrema ao risco, hipótese mencionada em comunicados oficiais como possível ato de natureza suicida, ainda em apuração.

Situação da leoa e medidas no parque

A leoa, chamada Leona, foi retirada do recinto original e levada para uma área separada do zoológico, onde permanece em observação. Biólogos e veterinários que acompanham o animal afirmam que o ataque está relacionado ao comportamento natural da espécie diante de um intruso em seu território e informam que não há registro anterior de agressões a pessoas por parte da leoa.

Nota do Parque Arruda Câmara e da Prefeitura de João Pessoa informou que não foi cogitada eutanásia do animal. A administração destaca que seguem protocolos de monitoramento comportamental e cuidado especializado e declara que o parque “cumpre normas técnicas e padrões de segurança”, colaborando com todos os órgãos envolvidos na investigação.

Infância marcada por pobreza e transtorno mental

A morte de Gerson reforçou relatos sobre uma vida atravessada por pobreza extrema, transtorno mental não tratado de forma contínua e rompimentos familiares. De acordo com a conselheira tutelar Verônica Silva de Oliveira, que acompanhou o caso por anos, o jovem cresceu em contexto de vulnerabilidade severa, com histórico de violação de direitos e ausência de estrutura de cuidado estável.

Diagnósticos oficiais indicavam esquizofrenia com sintomas psicóticos ativos. A mãe e os avós também tinham registros de transtornos psiquiátricos. A mãe perdeu o poder familiar há mais de uma década em razão do quadro de saúde mental, mas continuava sendo procurada por Gerson, que alternava períodos em abrigos, instituições de acolhimento e tentativas de retorno ao convívio familiar.

Segundo a conselheira tutelar, desde os 10 anos ele passou a integrar a rede de proteção da infância, após ser encontrado caminhando sozinho em rodovia federal e encaminhado pela Polícia Rodoviária Federal ao Conselho Tutelar. Ao longo da adolescência, alternou internações em abrigos, instituições socioeducativas e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), com dificuldade de adesão aos tratamentos.

A diretora de um CAPS de João Pessoa, Janaia D’Emery, relatou que o jovem chegou a ser acolhido recentemente, mas apresentava grande resistência em manter o tratamento, em parte pela falta de rede de apoio familiar, o que dificultava o acompanhamento contínuo.

Passagens pela polícia e decisões judiciais

Gerson acumulava 16 registros policiais, a maioria por pequenos furtos e dano ao patrimônio, sendo 10 ocorrências quando ainda era adolescente e outras seis já na maioridade, segundo autoridades locais e relatos de agentes penitenciários.

Em decisões recentes, juízes responsáveis pelos processos reconheceram o comprometimento da capacidade de compreensão e autodeterminação do jovem, recomendando internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico e a análise de aposentadoria por incapacidade. Em um dos casos, o laudo pericial concluiu que, à época de determinada conduta, ele era “inteiramente incapaz de compreender o caráter criminoso de seu ato”.

O diretor da Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, Edmilson Alves, e o chefe de disciplina da unidade, Ivison Lira, afirmaram em postagens nas redes sociais que a situação do rapaz era “muito delicada” e que ele permanecia sob medicação quando estava sob custódia. Em vídeos publicados dias antes do episódio, ambos descrevem a necessidade de acompanhamento psiquiátrico contínuo e se referem ao caso como uma “tragédia anunciada” em função da ausência de tratamento adequado fora do sistema prisional.

Sonho de “domar leões”

Relatos de conselheiros tutelares, policiais e servidores do sistema prisional apontam que, desde criança, Gerson manifestava o desejo de ir à África “para domar leões”. Em depoimentos divulgados por esses profissionais, há referência a um episódio em que ele teria tentado acessar a área de trem de pouso de uma aeronave, em um aeroporto, na intenção de concretizar o plano de viajar clandestinamente.

Agentes de segurança que tiveram contato frequente com o jovem relatam que ele também afirmava que faria o trajeto até o continente africano “a pé”, desconhecendo limites geográficos e de deslocamento. A percepção recorrente desses profissionais é de que o raciocínio dele era comparável ao de uma criança pequena, o que é mencionado em vídeos publicados após sua morte.

Funeral

O corpo de Gerson foi liberado pelo IML e sepultado em João Pessoa. Segundo os relatos, a despedida contou apenas com a presença da mãe e de uma prima, sem a participação de outros parentes próximos. A mãe, que vive com diagnóstico de esquizofrenia e teve o poder familiar retirado há mais de dez anos, precisou retornar ao IML para reconhecer o corpo antes do enterro.

A Prefeitura de João Pessoa informou que custeou os trâmites de velório e sepultamento por meio do auxílio funeral destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade, mecanismo previsto na política municipal de assistência social. O parque onde ocorreu o ataque segue fechado para visitação enquanto avançam laudos periciais, análises técnicas de segurança e procedimentos administrativos das autoridades responsáveis.

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