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Polícia

Homem é executado com mais de 100 tiros em Salvador; polícia apura ligação com “tribunal do crime”

Vítima foi encontrada com mais de 100 marcas de tiro em Tancredo Neves, em Salvador. Polícia apura se execução está ligada a tribunal do crime.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
14 de dezembro, 2025 · 15:30 4 min de leitura
Foto: Alberto Maraux
Foto: Alberto Maraux

Um homem ainda não identificado formalmente foi encontrado morto com mais de 100 marcas de disparos de arma de fogo na Rua Santa Catarina, no bairro de Tancredo Neves, em Salvador. O corpo foi localizado na noite de sábado (13), em uma área marcada pela forte presença de facções criminosas e sucessivos episódios de violência letal.

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Segundo informações da Polícia Militar, divulgadas em nota neste domingo, equipes da 23ª Companhia Independente (CIPM) foram acionadas após moradores relatarem tiros e a presença de um corpo na via. Ao chegarem ao local, os policiais constataram o óbito e acionaram o Departamento de Polícia Técnica (DPT) para perícia e remoção do corpo.

Na comunicação oficial, a Polícia Militar ressaltou que a vítima já estava sem sinais vitais quando a guarnição chegou e que a cena do crime foi isolada até a chegada das equipes periciais. A corporação informou ainda que o caso foi encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pelas investigações sobre a autoria e a motivação do crime.

De acordo com essa declaração, a principal linha de atuação neste momento é a coleta de evidências materiais, imagens de câmeras de segurança e depoimentos de possíveis testemunhas na região. A Polícia Civil confirmou que as diligências iniciais foram iniciadas e que o inquérito ficará a cargo da 2ª Delegacia de Homicídios (DH/Central), unidade que já apurou outros casos de execuções em Tancredo Neves, como registrado em ocorrências recentes na mesma área.

Suspeita de “tribunal do crime” e dinâmica da execução

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Informações preliminares levantadas pelas forças de segurança apontam que o homem pode ter sido submetido a um chamado “tribunal do crime” – espécie de julgamento informal conduzido por facções criminosas contra alvos considerados traidores, rivais ou devedores dentro da lógica do crime organizado.

O número de disparos, superior a 100, reforça, para investigadores ouvidos por veículos locais, a hipótese de uma execução com forte caráter de intimidação, típica de ações usadas por grupos armados para impor controle territorial e enviar recados a outras facções ou moradores. A imprensa baiana já havia registrado outro caso de vítima atingida por mais de 100 tiros em Tancredo Neves, em 2024, também em contexto de extrema brutalidade.

Apesar das semelhanças, até o momento não há confirmação oficial de que o crime mais recente esteja diretamente ligado a episódios anteriores. A Polícia Civil afirma que ainda é cedo para estabelecer conexão formal entre os casos.

Bairro acumula histórico de mortes violentas e disputas entre facções

Tancredo Neves é considerado por órgãos de segurança pública um dos bairros mais tensionados de Salvador no que diz respeito à disputa entre facções por pontos de venda de drogas e controle de áreas residenciais. Nos últimos anos, a região registrou uma série de homicídios, chacinas e confrontos armados.

Em 2024, quatro homens com idades entre 17 e 25 anos foram mortos a tiros na Rua de Roma, também em Tancredo Neves, em uma ocorrência que gerou forte repercussão e levou o DHPP a reforçar investigações sobre atuação de grupos armados na área. Em outro episódio, um homem foi executado em via pública após tiroteio atribuído a facção criminosa, em um domingo de maio de 2025.

A Rua Santa Catarina, cenário da execução com mais de 100 tiros, também já esteve no foco de autoridades. Em maio de 2025, um homem foi assassinado a tiros na mesma rua, em um crime registrado pela 23ª CIPM e encaminhado à Polícia Civil. Naquele caso, assim como agora, a motivação não foi informada de imediato.

“Tribunal do crime” como mecanismo de controle e intimidação

Especialistas em segurança pública apontam que os chamados “tribunais do crime” têm se consolidado como um dos mecanismos de controle social empregados por facções em bairros da periferia de grandes cidades brasileiras. Nesses julgamentos clandestinos, decisões sobre punições, expulsões e mortes são tomadas por lideranças do crime, muitas vezes com filmagens e compartilhamento de áudios e mensagens em aplicativos para reforçar o clima de medo.

Relatórios e reportagens sobre a atuação de facções na Bahia mostram que essas práticas não se limitam a disputas entre rivais, atingindo também moradores acusados de colaborar com a polícia ou descumprir “regras” impostas pelas organizações criminosas. Em Salvador, Tancredo Neves, Fazenda Coutos e outras áreas já foram citadas em operações policiais recentes como territórios de interesse dessas facções, o que ajuda a explicar o volume de homicídios concentrado nesses locais.

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