Uma clínica de reabilitação investigada pela Polícia Civil da Bahia por tortura, maus-tratos, cárcere privado e envolvimento em duas mortes recebia repasses do erário público. A Clínica Terra Santa, alvo das investigações, mantinha um contrato de mais de meio milhão de reais com a Prefeitura de Xique-Xique, município do norte da Bahia às margens do Rio São Francisco.
Documentos obtidos pelo portal A Tarde revelam um contrato de R$ 516,6 mil entre a instituição e o município. O acordo foi assinado em 18 de novembro de 2025 e previa vigência de 12 meses, com remuneração de R$ 1.793,75 por paciente ao mês para atendimento de até 24 pessoas com dependência química, alcoolismo e transtornos mentais. A contratação se deu por credenciamento, modalidade prevista na Lei de Licitações para serviços em que todos os habilitados podem ser incluídos.
A realidade encontrada pela Polícia Civil, no entanto, foi bem diferente: uma clínica na zona rural de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, se revelou um cenário de horrores. A ação resultou no resgate de 39 pacientes encontrados em situação de cárcere privado. Os policiais encontraram quartos trancados pelo lado de fora com cadeados e trancas, além de cercas com fios eletrificados instaladas nos telhados para impedir fugas.
O gerente da unidade, apontado como braço direito do proprietário, foi encontrado dormindo nas dependências e autuado em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos. A Justiça determinou ainda a instauração de inquérito policial para investigar o dono da clínica, Moisés de Jesus Leal, e ordenou seu afastamento da direção e administração da instituição pelo prazo de 60 dias.
As investigações tiveram origem em dois casos graves. O primeiro envolve o interno Geovane Santana Lopes, de 31 anos, que sofreu graves queimaduras na unidade em dezembro de 2025 e morreu em 4 de maio de 2026. Quatro dias após a morte de Geovane, o monitor da clínica Iago Marques Formiga, de 33 anos, desapareceu. O corpo do funcionário foi localizado em 19 de maio de 2026, carbonizado e com perfurações de arma de fogo na BA-530, em Camaçari.
Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde com base nos documentos do contrato, a Prefeitura de Xique-Xique mantinha seis pacientes internados na unidade até o momento da operação. O município informou que o custeio era individualizado, com valores entre R$ 1.500 e R$ 2.000 por paciente, mas não revelou quanto já havia sido efetivamente pago à clínica desde a assinatura do contrato.
O próprio contrato estabelecia que cabia ao município fiscalizar a execução dos serviços, registrar irregularidades e exigir providências. O documento chegou a identificar nominalmente um fiscal, uma substituta e um gestor responsáveis pelo acompanhamento. A administração, porém, não informou se esse acompanhamento incluía visitas periódicas às instalações da clínica em Candeias — cidade a quase 600 km de Xique-Xique.
Após a operação da Polícia Civil, a Prefeitura de Xique-Xique determinou a suspensão imediata do vínculo contratual, retirou os seis pacientes que estavam internados na unidade e informou que eles receberiam acompanhamento da equipe municipal de saúde e assistência social. Conforme a necessidade de cada caso, os pacientes serão encaminhados para outras instituições credenciadas.
Em nota, o município afirmou que a contratação ocorreu com base na documentação apresentada pela instituição e na necessidade de ampliar a oferta de vagas para tratamento especializado. A administração disse que psicólogos, assistentes sociais e profissionais da rede municipal de saúde acompanhavam o tratamento dos pacientes durante a internação e que, após a alta, eles seguiam sendo atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).







