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Polícia

Dinheiro público de Xique-Xique bancava clínica baiana onde pacientes eram torturados e mortos

Contrato de R$ 516,6 mil entre a Prefeitura de Xique-Xique e a Clínica Terra Santa foi firmado em novembro de 2025 — meses antes de 39 internos serem resgatados em operação policial.

Redação ChicoSabeTudo
31 de julho, 2026 · 00:00 3 min de leitura
Fachada de clínica de reabilitação Terra Santa em Candeias, alvo de operação policial na Bahia
Fachada de clínica de reabilitação Terra Santa em Candeias, alvo de operação policial na Bahia

Uma clínica de reabilitação investigada pela Polícia Civil da Bahia por tortura, maus-tratos, cárcere privado e envolvimento em duas mortes recebia repasses do erário público. A Clínica Terra Santa, alvo das investigações, mantinha um contrato de mais de meio milhão de reais com a Prefeitura de Xique-Xique, município do norte da Bahia às margens do Rio São Francisco.

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Documentos obtidos pelo portal A Tarde revelam um contrato de R$ 516,6 mil entre a instituição e o município. O acordo foi assinado em 18 de novembro de 2025 e previa vigência de 12 meses, com remuneração de R$ 1.793,75 por paciente ao mês para atendimento de até 24 pessoas com dependência química, alcoolismo e transtornos mentais. A contratação se deu por credenciamento, modalidade prevista na Lei de Licitações para serviços em que todos os habilitados podem ser incluídos.

A realidade encontrada pela Polícia Civil, no entanto, foi bem diferente: uma clínica na zona rural de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, se revelou um cenário de horrores. A ação resultou no resgate de 39 pacientes encontrados em situação de cárcere privado. Os policiais encontraram quartos trancados pelo lado de fora com cadeados e trancas, além de cercas com fios eletrificados instaladas nos telhados para impedir fugas.

O gerente da unidade, apontado como braço direito do proprietário, foi encontrado dormindo nas dependências e autuado em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos. A Justiça determinou ainda a instauração de inquérito policial para investigar o dono da clínica, Moisés de Jesus Leal, e ordenou seu afastamento da direção e administração da instituição pelo prazo de 60 dias.

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As investigações tiveram origem em dois casos graves. O primeiro envolve o interno Geovane Santana Lopes, de 31 anos, que sofreu graves queimaduras na unidade em dezembro de 2025 e morreu em 4 de maio de 2026. Quatro dias após a morte de Geovane, o monitor da clínica Iago Marques Formiga, de 33 anos, desapareceu. O corpo do funcionário foi localizado em 19 de maio de 2026, carbonizado e com perfurações de arma de fogo na BA-530, em Camaçari.

Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde com base nos documentos do contrato, a Prefeitura de Xique-Xique mantinha seis pacientes internados na unidade até o momento da operação. O município informou que o custeio era individualizado, com valores entre R$ 1.500 e R$ 2.000 por paciente, mas não revelou quanto já havia sido efetivamente pago à clínica desde a assinatura do contrato.

O próprio contrato estabelecia que cabia ao município fiscalizar a execução dos serviços, registrar irregularidades e exigir providências. O documento chegou a identificar nominalmente um fiscal, uma substituta e um gestor responsáveis pelo acompanhamento. A administração, porém, não informou se esse acompanhamento incluía visitas periódicas às instalações da clínica em Candeias — cidade a quase 600 km de Xique-Xique.

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Após a operação da Polícia Civil, a Prefeitura de Xique-Xique determinou a suspensão imediata do vínculo contratual, retirou os seis pacientes que estavam internados na unidade e informou que eles receberiam acompanhamento da equipe municipal de saúde e assistência social. Conforme a necessidade de cada caso, os pacientes serão encaminhados para outras instituições credenciadas.

Em nota, o município afirmou que a contratação ocorreu com base na documentação apresentada pela instituição e na necessidade de ampliar a oferta de vagas para tratamento especializado. A administração disse que psicólogos, assistentes sociais e profissionais da rede municipal de saúde acompanhavam o tratamento dos pacientes durante a internação e que, após a alta, eles seguiam sendo atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

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