O cemitério Bosque da Paz, na Estrada Velha do Aeroporto, em Salvador, foi palco de uma despedida marcada pela dor e pela revolta neste sábado (25). O trabalhador Leonardo Gil Lima, de 33 anos, mais conhecido como Léo Lanches, morreu na noite de quinta-feira (23) durante uma ação da Polícia Militar no bairro de São Cristóvão, em Salvador. Dezenas de familiares, amigos e moradores da comunidade lotaram o local para prestar as últimas homenagens ao comerciante.
Durante o cortejo, o clima foi de tristeza intensa e indignação. Amigos e parentes levaram flores, fizeram orações e pediram justiça. Segundo a família, o trabalhador foi baleado na porta da própria residência, não estava armado e não tinha qualquer envolvimento com atividades criminosas.
Conhecido na comunidade como "Léo Lanches", o jovem havia inaugurado, há menos de uma semana, o próprio estabelecimento, onde vendia lanches e salgados. Antes de ter ponto fixo, ele vendia lanches em uma bicicleta pela região. A notícia da morte causou forte comoção entre clientes, vizinhos e moradores de São Cristóvão.
Segundo informações iniciais, policiais militares chegaram ao local efetuando disparos, e um dos tiros acabou atingindo a cabeça de Léo. Ele chegou a ser socorrido e encaminhado ao Hospital Geral Menandro de Faria, mas não resistiu aos ferimentos. A versão da Polícia Militar, no entanto, é diferente. De acordo com a PM, equipes da 49ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM) faziam rondas por volta das 20h40, na localidade de Lessa Ribeiro, quando encontraram um grupo de homens em "atitude suspeita". Ainda segundo a corporação, os suspeitos atiraram contra os agentes ao notarem a viatura, houve revide e, após o fim dos disparos, os policiais fizeram uma varredura na região e encontraram a vítima ferida no chão.
Após a morte de Léo, moradores incendiaram um ônibus, queimaram pneus e interditaram a principal via da região ainda na noite de quinta-feira. O coletivo incendiado fazia a linha 1036 – Estação Mussurunga x Fazenda Grande 2/Cajazeiras 8 e ficou completamente destruído pelas chamas. Na manhã de sexta-feira (24), a circulação de ônibus permaneceu suspensa por causa dos reflexos da manifestação.
Os policiais militares envolvidos na operação foram afastados das atividades, e a Polícia Militar da Bahia informou que instaurou um processo administrativo para apurar a atuação dos agentes. A Polícia Civil informou que a 1ª Delegacia de Homicídios investiga a morte e realiza diligências e oitivas para o esclarecimento dos fatos. As câmeras corporais utilizadas pelos militares durante a ação serão encaminhadas às autoridades competentes e integrarão os procedimentos de apuração.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, lamentou a morte de Leonardo Gil Lima e afirmou que o caso será investigado com rigor. O governador informou ainda que a Corregedoria da Polícia Militar e a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos já acompanham a família e prestam o apoio necessário. Em publicação nas redes sociais, Jerônimo declarou que "os policiais envolvidos foram afastados, e as imagens das câmeras corporais integrarão as investigações da Polícia Civil e da Corregedoria. A apuração será rigorosa. Os fatos precisam ser esclarecidos e os responsáveis devem responder perante a Justiça."
O caso segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da PM. A família de Léo Lanches aguarda respostas sobre as circunstâncias exatas da morte do comerciante, que deixou para trás o sonho recém-realizado de ter o próprio negócio — e a dor de uma comunidade que pede justiça.







