Uma sequência de mortes que parecia inexplicável. Um inseticida agrícola misturado a alimentos. E uma obsessão que, segundo as investigações, destruiu uma família inteira. O chamado "Caso Maragogipe" completa oito anos em 2026 e ainda não teve julgamento definitivo — o júri popular foi remarcado para o dia 7 de outubro de 2026, após sucessivos adiamentos.
A morte da marisqueira Adriane Ribeiro Santos, de 23 anos, e de suas duas filhas, Gleysse Kelly Santos da Conceição, de 5 anos, e Ruteh Santos da Conceição, de 2 anos, é um dos casos criminais mais impactantes da história recente da Bahia. Entre o fim de julho e meados de agosto de 2018, as três morreram em circunstâncias semelhantes no distrito de Nagé, em Maragogipe, no Recôncavo baiano.
As três morreram em um intervalo de 15 dias. O único sobrevivente da casa foi o marido de Adriane e pai das crianças, identificado como Jeferson Brandão, que negou envolvimento nas mortes. O cachorro da família também foi envenenado e morreu dias antes das primeiras vítimas humanas — episódio que mais tarde passou a integrar a investigação da Polícia Civil.
Os laudos identificaram que Adriane, Gleysse e Ruteh morreram em decorrência de intoxicação causada por Terbufós, um inseticida agrícola extremamente tóxico presente em produtos popularmente conhecidos como "chumbinho". Segundo a acusação, a substância teria sido misturada a alimentos ingeridos pelas vítimas em momentos diferentes, provocando as mortes ao longo de três semanas consecutivas.
Investigações da Polícia Civil apontam que Elisângela Almeida Oliveira, presa em outubro de 2018, era conhecida das vítimas e todos frequentavam a mesma igreja. A suspeita teria despertado um interesse pelo marido de Adriane e, por isso, planejou as mortes em três semanas diferentes. O próprio Jeferson afirmou que Elisângela custeou despesas do seu casamento, insistia em tratá-lo como filho e pedia para ser chamada de mãe.
As investigações não foram simples. Os primeiros laudos toxicológicos realizados nos corpos de Adriane e Ruteh não identificaram substâncias capazes de explicar as mortes. Diante da falta de respostas, o delegado responsável pelo caso solicitou novos exames e pediu a exumação dos corpos. Em setembro de 2018, após autorização judicial, os restos mortais de Gleysse e Ruteh foram retirados dos túmulos para análises complementares.
Valci Boaventura Soares, marido da acusada, também foi investigado. A Polícia Civil informou que ele, junto com Elisângela, estava coagindo testemunhas para que ninguém passasse informações à polícia, e destruindo provas. Ele foi preso, mas posteriormente solto por falta de elementos suficientes para mantê-lo detido. O Ministério Público da Bahia, contudo, decidiu denunciá-lo à Justiça após entender que surgiram novos indícios durante a instrução processual, segundo informações divulgadas pelo BNews.
O Tribunal de Justiça do Estado da Bahia concedeu liberdade provisória para Elisângela Almeida Oliveira em abril de 2024. De acordo com a decisão, a defesa pediu a medida para viabilizar tratamentos médicos, já que ela sofre com problemas de bexiga, fazendo uso de sonda e sendo internada várias vezes. A decisão previu que ela seria mantida em prisão domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica, podendo sair de casa apenas para atendimento médico-hospitalar.
O julgamento foi marcado inicialmente para abril de 2026, mas acabou adiado após a defesa comprovar que Elisângela havia sido submetida a uma cirurgia para retirada da vesícula biliar. Posteriormente, uma nova sessão foi agendada para junho do mesmo ano, porém a defesa voltou a pedir a suspensão do júri sob alegação de problemas de saúde da acusada. O pedido de suspensão por tempo indeterminado foi negado, mas a Justiça decidiu conceder novo adiamento.
Quase oito anos após as mortes que chocaram o Recôncavo baiano, familiares ainda aguardam o julgamento que poderá definir a responsabilidade criminal pela morte de Adriane e de suas duas filhas. Enquanto a decisão não chega, o caso permanece vivo na memória dos moradores de Maragogipe como uma das histórias mais impactantes e perturbadoras da crônica policial baiana.







