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Carnaval de Salvador: veja quais sinais “de facções” podem te colocar em risco

Sinais que universalmente representam "paz e amor" ou "ok" ganharam significados letais na guerra entre facções na Bahia. Entenda o "código proibido" para evitar riscos durante a folia.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
10 de fevereiro, 2026 · 15:00 3 min de leitura
Imagem: Reprodução/Redes sociais
Imagem: Reprodução/Redes sociais

Para o turista que desembarca em Salvador, a expectativa é de festa, música e alegria. No entanto, em meio à euforia do Carnaval, existe um código silencioso e perigoso que, por desconhecimento, pode colocar visitantes em risco de morte. O alerta é sério: evite fazer sinais com as mãos ao posar para fotos.

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O que em grande parte do mundo é interpretado como um sinal de vitória (dois dedos levantados) ou um gesto de aprovação (o sinal de 'ok' ou três dedos), na capital baiana e Região Metropolitana, foi apropriado pela gramática da violência.

A apropriação dos símbolos

A dinâmica do crime organizado na Bahia transformou a linguagem gestual em uma declaração de guerra. Segundo autoridades de segurança pública, os números representam lealdade a grupos criminosos rivais:

  • O número 2 ("Tudo 2"): É utilizado como saudação e identificação de território do Comando Vermelho (CV).

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    O número 3 ("Tudo 3"): É uma alusão direta ao Bonde do Maluco (BDM), facção rival.

Fazer um desses sinais em uma área dominada pelo grupo oposto não é visto apenas como uma brincadeira ou coincidência, mas como uma afronta direta, uma invasão simbólica ou uma declaração de pertencimento à facção inimiga.

A lógica territorial

Um policial militar com mais de dez anos de atuação no patrulhamento ostensivo explica que a violência decorrente desses gestos está ligada à disputa por território.

"Se você caminha por um bairro de Salvador ou da Região Metropolitana e vê pichações como 'T2' ou 'T3' em muros e postes, aquilo é uma demarcação de fronteira. Quando alguém faz o sinal com a mão, a facção dominante entende que aquela pessoa está desafiando o poder local, afirmando a presença do rival. A resposta, infelizmente, costuma ser brutal", detalha o oficial, que prefere não se identificar.

O monitoramento não se restringe apenas aos gestos manuais. O "código" se estende à estética. Cortes de cabelo ou sobrancelhas com duas ou três listras (risquinhos) também entraram no radar dos criminosos, podendo gerar confusões fatais. A recomendação das forças de segurança é evitar tais estilos durante a estadia na cidade.

A severidade dessa "lei do silêncio" é evidenciada por casos criminais recentes. O exemplo mais famoso envolveu os irmãos Daniel e Gustavo Natividade, de 24 e 15 anos. Músicos do tradicional bloco afro Malê Debalê e sem qualquer envolvimento com a criminalidade, eles foram executados em Arembepe, área turística de Camaçari.

O motivo? Uma foto postada nas redes sociais onde faziam o sinal de três dedos — um gesto comum entre jovens, mas interpretado pelos executores (membros do CV) como uma saudação ao BDM. Os irmãos eram de Salvador, mas, estando em uma região que não conheciam profundamente, desconheciam a dinâmica local do tráfico.

Apesar de boatos recentes sobre uma suposta "proibição" de retaliações por sinais ter circulado nas redes sociais — atribuída a comunicados de facções — a realidade nas ruas mostra o contrário. Em janeiro deste ano, um jovem identificado como Felipe foi raptado e morto após fazer o sinal do "3" durante um enterro no Cemitério Quinta dos Lázaros. A vítima foi levada para o bairro da Cidade Nova, área de atuação de um grupo rival, e executada.

A importância desses símbolos é tamanha que define a sobrevivência até dentro do sistema prisional. Um policial penal relata que a triagem de presos recém-chegados depende da identificação dessas afiliações.

"Perguntas, gírias específicas e, principalmente, os gestos e tatuagens são usados pelos próprios detentos para classificar quem entra. Isso determina em qual pavilhão o preso ficará para evitar mortes imediatas dentro da cadeia", explica o agente.

Recomendação ao turista

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) reforça o policiamento em áreas turísticas durante o Carnaval, mas a prevenção individual é indispensável.

Para quem vem curtir a festa:

  • Evite gestos em fotos: Prefira poses neutras, sorrisos ou abraços. Evite levantar 2, 3 ou 4 dedos (algumas variações também são monitoradas).

  • Atenção ao entorno: Observe se há pichações de facções nas paredes ao entrar em comunidades ou bairros desconhecidos.

  • Cuidado com a estética: Evite cortes de cabelo ou sobrancelha que façam alusão a numerações.

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