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Polícia

Bahia lança 'Nenhuma a Menos' e reforça rede de apoio à mulher

A Polícia Civil da Bahia lança a campanha 'Nenhuma a Menos' e reforça a rede de proteção contra a violência feminina, com foco em acolhimento e denúncia.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
07 de março, 2026 · 03:12 5 min de leitura

Em meio a um cenário preocupante de violência contra a mulher em todo o país, a Polícia Civil da Bahia reforça seu compromisso com a proteção feminina. Lançando a campanha “Nenhuma a Menos”, o estado busca unir forças da sociedade e de diversas instituições para combater o feminicídio e acolher as vítimas.

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Os números recentes acendem um alerta. No Brasil, 2025 registrou o maior número de feminicídios dos últimos 14 anos, com 1.568 vítimas. Na Bahia, o cenário não é diferente, com 102 vítimas de feminicídio, apesar de uma leve queda de 7,27% em relação a 2024, segundo dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Um Departamento Focado na Proteção e Acolhimento

Para entender melhor as ações e especificidades da violência de gênero na Bahia, o portal conversou com Juliana Fontes, delegada da Polícia Civil e diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV). Criado em 2023, o DPMCV é uma atualização importante da Secretaria de Segurança Pública e trabalha no combate a crimes direcionados a diversos grupos vulneráveis, incluindo mulheres, crianças, adolescentes, idosos, pessoas que sofrem racismo, intolerância religiosa e a população LGBTQIA+.

“O Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis é um departamento recém-criado pelo Governo do Estado e bastante amplo. Meu trabalho hoje é direcionar os 417 municípios do Estado da Bahia na pauta das mulheres, crianças, adolescentes, idosos, racismo, questão de intolerância religiosa, população LGBT, enfim, todas as pessoas em situação de vulnerabilidade”, explica a delegada Juliana Fontes.

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Na Bahia, a violência psicológica surge como o crime mais registrado nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). Ameaças, muitas vezes motivadas pela não aceitação do fim de relacionamentos, encabeçam a lista, seguidas por violências físicas (lesão corporal) e injúria. Outro dado que preocupa é o aumento no descumprimento de medidas protetivas. Só no ano passado, a Casa da Mulher Brasileira em Salvador recebeu cerca de 4.500 pedidos de medidas protetivas de urgência, o que, infelizmente, também resultou em mais descumprimentos.

A delegada garante que a Polícia Civil está agindo: “Autores estão descumprindo medida protetiva, mas nós estamos adotando as providências necessárias. Estamos instaurando inquérito policial, autores estão sendo presos por descumprimentos, então toda a ação da polícia judiciária está sendo feita”.

A Complexidade da Violência e o Papel da Mídia

Juliana Fontes observa que a violência doméstica é um crime complexo de combater porque atinge todas as camadas sociais, sendo um problema de cultura e educação. Por isso, é difícil traçar um perfil específico de vítimas ou agressores. Ela também ressalta o impacto da mídia:

“A mídia tem um papel muito importante, mas o que a gente vê é que quando acontece um fato de uma gravidade e a mídia publica, como no caso do rapaz que deu 60 socos na mulher em Brasília, na mesma semana outro já deu 30 e já foi publicada a outra notícia. Então acaba que vira um efeito cascata. Muitos autores se veem e repetem aquela ação”, comenta a diretora do DPMCV.

Por isso, a delegada defende que a imprensa foque na divulgação de dados e nos mecanismos de defesa e justiça, em vez de detalhes gráficos, para evitar a repetição de ações violentas.

O Tempo da Vítima e a Importância do Acolhimento

A delegada destaca que o processo de denúncia é muito particular para cada mulher. Muitas sentem vergonha, medo ou são julgadas pela sociedade, o que atrasa a busca por ajuda. A violência doméstica, muitas vezes, é “normalizada” no dia a dia, dificultando o reconhecimento da situação e a saída do ciclo abusivo, que envolve aspectos emocionais, financeiros e familiares.

“Cada mulher tem o seu tempo de denunciar, cada mulher tem o seu tempo de pedir socorro, de pedir ajuda, porque muitas têm vergonha, muitas têm medo, e a sociedade muitas vezes julga e aponta aquela mulher. É comum ter esse medo, é comum ter essa vergonha, mas a gente repete que é importante romper esse ciclo, é importante denunciar, é importante sair daquela situação de violência”, afirma Juliana.

Mesmo que a vítima retire a queixa ou retorne ao relacionamento abusivo, a delegada enfatiza que o apoio e o acolhimento devem continuar. Qualquer delegacia está preparada para receber essas denúncias, e o tratamento humanizado é crucial para fortalecer a mulher, permitindo que ela, em seu próprio tempo, consiga se libertar da violência de forma definitiva.

A Força da Rede de Proteção

O combate à violência contra a mulher vai além da ação policial. Segundo Juliana Fontes, a “rede de proteção” é fundamental. Não basta apenas responsabilizar o agressor; a vítima precisa de um acompanhamento completo, que envolve apoio jurídico, psicológico e social. Essa rede inclui a Defensoria Pública, o Ministério Público, os Centros de Referência da Assistência Social (CREAS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), entre outros órgãos.

“Se a gente não tem essa rede de proteção, só a polícia não vai resolver a situação daquela mulher. Então, nós temos contato com toda a rede e, quando a mulher vem para uma delegacia, ela já sai encaminhada para toda uma rede. São órgãos que dão efetividade a essa proteção, a essa defesa da mulher, para ela saber que ela não está sozinha”, explica a delegada.

Apesar dos avanços, ainda há desafios. A diretora do DPMCV aponta a necessidade de mais servidores e de mais delegacias especializadas, mas há perspectivas de melhora com o concurso público previsto para este ano.

A campanha “Nenhuma a Menos”, lançada em agosto do ano passado, vai além da resposta aos crimes. Ela atua na prevenção e conscientização, com ações em escolas e grupos comunitários. A ideia é garantir que “nenhuma a menos” seja retirada de sua vida, do salão de beleza, da escola, de qualquer lugar, por relações abusivas.

Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, a delegada Juliana Fontes deixa uma reflexão e um chamado à luta contínua:

“Que essa luta continue, porque precisamos sim construir uma sociedade livre, uma sociedade justa para todas as mulheres, para que possam viver com liberdade, para que possam estar dentro das suas casas na certeza de que ali é o seu lugar de paz e não lugar de medo e de tensão.”

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