A autônoma Michelle Cristina Feliciano Costa dos Santos, de 32 anos, irá a júri popular sob a acusação de feminicídio qualificado contra sua própria mãe, a diretora aposentada Márcia Cristina Feliciano Costa, de 59 anos. A decisão judicial ocorreu após a audiência de instrução realizada na última quinta-feira (19). O homicídio, registrado em setembro do ano passado em Ribeirão Preto (SP), teria sido motivado por um desentendimento em relação à organização da festa de 15 anos da filha de Michelle.
Contradições no depoimento
Durante a oitiva judicial, um novo argumento foi apresentado pela acusada. Segundo o promotor de Justiça Marcus Túlio Nicolino, Michelle afirmou à Justiça não se recordar de ter confessado o assassinato à polícia na época dos fatos, sugerindo que a admissão de culpa poderia ter sido apenas "um sonho".
"Ela disse que, na fase policial, não se lembra de ter confessado e que essa confissão pode ter derivado de um sonho que ela teve, quer dizer, umas coisas absurdas. Mas, na verdade, ela estava acompanhada de advogado na delegacia de polícia e deu por menores de como praticou o crime", disse Marcus Túlio.
O Ministério Público, no entanto, rechaçou a alegação. A Promotoria enfatizou que, durante a fase de inquérito na delegacia, a ré estava devidamente acompanhada de seu advogado e forneceu detalhes minuciosos sobre a dinâmica do crime, o que inviabiliza a tese de confusão mental ou delírio.
A defesa de Michelle, conduzida pelo advogado Camilo Garcia, informou que já protocolou um recurso contra a decisão que a enviou a júri popular (sentença de pronúncia) e contra a manutenção de sua prisão cautelar. A equipe de defesa aguarda agora a análise da instância superior. Até o momento, não há data definida para o julgamento, e a acusada permanece detida na Cadeia Pública de São Joaquim da Barra (SP).
Reviravolta na investigação
O caso ocorreu no dia 11 de setembro em uma área de lazer no bairro Planalto Verde, zona Oeste de Ribeirão Preto. Inicialmente, a ocorrência foi registrada como "morte a esclarecer". A primeira versão apresentada por Michelle indicava que ela estava ajudando a mãe na limpeza do local quando a vítima teria sofrido um acidente fatal no box do banheiro, sendo encontrada em meio a estilhaços de vidro.
A linha de investigação mudou drasticamente graças à análise técnica do Serviço de Verificação de Óbito (SVO). Durante o exame preliminar, a médica responsável notou que as lesões no corpo de Márcia eram incompatíveis com cortes provocados por vidro, indicando claramente o uso de uma arma branca. A polícia foi acionada imediatamente.
Provas periciais e a confissão
Confrontada com as evidências, Michelle alterou sua versão, confessou o homicídio e levou os investigadores até o local onde a faca utilizada no crime havia sido escondida. Segundo o delegado José Carvalho de Araújo Júnior, a tranquilidade e a frieza da acusada ao relatar os fatos causaram estranheza à equipe de Homicídios.
O laudo definitivo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou a gravidade do ataque:
A vítima sofreu 20 perfurações por faca.
Apresentava ferimentos característicos de esgorjamento (corte profundo no pescoço).
Teve todos os dentes frontais quebrados.
Possuía diversas lesões de defesa nas mãos e antebraços, além de hematomas nas pernas, evidenciando que houve luta corporal intensa antes do óbito.
De acordo com análises de psicologia forense aplicadas ao inquérito, a dinâmica do ataque se enquadra no conceito de overkilling (excesso de violência). A quantidade de golpes e a severidade das lesões, que ultrapassam o necessário para causar a morte, são apontadas por especialistas como indicativos de forte descontrole emocional, raiva intensa e requintes de crueldade.








