Feira de Santana tem uma economia robusta, é um dos maiores entroncamentos logísticos do Nordeste e concentra universidades reconhecidas. Mesmo assim, a cidade aparece entre os dez municípios com pior desempenho social do país no recorte de grandes cidades, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026. Para o sociólogo Ricardo Aragão, a explicação está justamente nessa contradição.
"O município possui bolsões de pobreza urbana e rural. Parte significativa da população não usufrui plenamente da riqueza produzida pela cidade", afirmou Aragão em análise sobre os dados divulgados pelo levantamento. O especialista aponta que o crescimento econômico da cidade sempre foi fragmentado do ponto de vista social — e o índice deixa isso evidente.
Feira de Santana recebeu nota 60,70 em uma escala de 0 a 100, abaixo da média nacional de 63,40 pontos, segundo informações divulgadas pelo G1. O índice avalia os 5.570 municípios brasileiros com base em 57 indicadores sociais e ambientais organizados em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades. O IPS Brasil 2026 foi divulgado em maio e mostra que a qualidade de vida no país segue marcada por desigualdades persistentes, com diferenças relevantes entre regiões e municípios.
Um dos piores resultados da cidade foi no componente "Segurança Pessoal", que considera homicídios, violência urbana e mortes no trânsito. Feira registrou apenas 16,70 pontos nesse quesito, segundo a fonte original. O dado converge com outros levantamentos recentes: com base em dados de 2024, a cidade ficou na 7ª posição nacional entre os municípios com mais de 100 mil habitantes no Atlas da Violência 2026, com taxa estimada de 67 homicídios por 100 mil habitantes. Apesar disso, Feira de Santana registrou redução entre 12% e 14% nos índices de violência até maio de 2026, na comparação com igual período de 2025, segundo o Coronel Michel Muller, do Comando de Policiamento Regional Leste.
Aragão atribui parte do problema ao crescimento acelerado e desordenado da cidade entre as décadas de 1970 e 1990, impulsionado pela posição estratégica às margens da BR-324. "A infraestrutura urbana não acompanhou o ritmo do crescimento populacional da cidade", explicou o sociólogo, citando pressões sobre saneamento básico, mobilidade precária e ocupações irregulares. Do ponto de vista da segurança pública, a expansão desordenada contribui para territórios com baixa presença do Estado e maior vulnerabilidade social, favorecendo a incidência de violência — um padrão que estudiosos identificam em diversas cidades do Nordeste.
No eixo "Inclusão Social", Feira marcou 47,25 pontos. Já em "Acesso à Educação Superior", o índice foi de 33,93 pontos, conforme informações divulgadas pela fonte original. O sociólogo avalia que a presença da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e outras instituições não se traduz automaticamente em mobilidade social ampla. Para ele, o modelo econômico ainda está concentrado em comércio e serviços de baixa densidade tecnológica, o que limita a remuneração e a distribuição de renda.
A lógica do IPS é diferente da do PIB: em vez de medir apenas riqueza, o índice tenta responder se essa riqueza virou moradia digna, acesso à informação, saúde, segurança, direitos e oportunidades reais. É exatamente nessa diferença que Feira de Santana perde pontos — e o retrato traçado por Aragão deixa claro que o desafio não é de crescimento econômico, mas de distribuição.
O IPS surge para complementar medidas de desenvolvimento econômico, pois apenas o crescimento sem progresso social pode resultar em degradação ambiental, aumento da desigualdade e conflitos sociais. O índice é produzido pelo Instituto IPS, Social Progress Imperative, Imazon, Amazônia 2030, Fundación Avina e Centro de Empreendedorismo da Amazônia, e tem como objetivo orientar políticas públicas e investimentos sociais nos municípios.







