A Rua Chile voltou ao centro das atenções em Salvador — e desta vez com uma tese clara: não basta atrair turistas se o próprio habitante da cidade não se reconhecer mais naquele território. É essa a premissa que orienta a Associação dos Empreendedores da Rua Chile e Entorno (Arce), criada em junho de 2026 para coordenar esforços de requalificação de uma das áreas mais simbólicas do Brasil.
"Se o soteropolitano não voltar a frequentar aquela região, não adianta só o turista estar lá. Nosso principal cliente tem que ser a população da cidade", afirmou Antonio Barretto Junior, presidente da entidade, em entrevista ao jornal A Tarde. A frase resume o que o empresário chama de maior desafio do processo: reconstruir o senso de pertencimento dos soteropolitanos com o Centro Histórico.
A oficialização pública da Arce aconteceu em 9 de junho de 2026, em um coquetel no Hotel Fasano Salvador, com a presença de secretários estaduais e municipais, além de representantes do setor privado e entidades de classe. A associação foi constituída para ser a interlocutora qualificada dos interesses coletivos dos negócios que operam na histórica região.
Cerca de R$ 1 bilhão já foram investidos entre o poder público e a iniciativa privada em empreendimentos concluídos ou em desenvolvimento na Rua Chile e entorno, como o Hotel Fasano Salvador, o Fera Palace Hotel, o Palacete Tira-Chapéu, o Gorges Residence, o Palácio Castro Alves e o Palácio Rio Branco, entre outros. A Arce surge para dar organicidade a esse movimento, garantindo que ele vá além dos grandes empreendimentos.
Congregando desde grandes empreendimentos a profissionais autônomos, a associação irá pleitear e colaborar com a implementação de melhorias na segurança, urbanização, conservação do patrimônio, captação de eventos importantes para a região e na promoção de um calendário cultural e social vibrante.
Barretto Junior tem uma ligação afetiva com a região que antecede qualquer projeto empresarial. Ele relata, segundo informações divulgadas pelo A Tarde, que frequentava a Rua Chile desde a infância, levado pela mãe às lojas da época — e que guarda memórias de personagens folclóricos que animavam as calçadas. Mais tarde, atuou como diretor executivo de turismo da Prefeitura de Salvador por seis anos, em duas gestões diferentes, contribuindo para a entrega de equipamentos culturais como a Casa do Carnaval e a Cidade da Música.
O presidente da Arce comentou sobre a relevância da Rua Chile para o Centro Histórico de Salvador e afirmou que a localidade não pode ser apenas preenchida por negócios, mas que o soteropolitano precisa voltar a morar nesse espaço da cidade. Para ele, repovoar a região é parte indissociável de qualquer estratégia de revitalização sustentável.
O empresário deixou claro que o objetivo é resgatar o glamour da Rua Chile não apenas para os grandes empreendimentos, mas para todos que compõem esse território — o pequeno, o médio e o grande empresário. A criação da Arce ocorre em um momento de reposicionamento da Rua Chile como eixo estratégico para turismo, cultura, gastronomia, hospedagem, serviços, moradia e economia criativa.
A questão do morador também encontra eco nas políticas públicas. O prefeito de Salvador, Bruno Reis, afirmou que a gestão municipal já investiu mais de R$ 1,5 bilhão na recuperação do Centro Histórico da capital baiana nos últimos anos. Ainda como parte da estratégia de resgate da região, a Prefeitura já tem 90% dos seus órgãos em funcionamento nesta área da cidade.
Considerada a primeira rua oficialmente urbanizada do Brasil, a Rua Chile viveu décadas de esplendor comercial e cultural antes de entrar em decadência a partir do final dos anos 1960, esvaziada pelo crescimento de novos centros comerciais. A retomada, iniciada na década de 2010, chegou agora a uma nova fase — com uma associação que quer garantir que essa história seja contada também pelos próprios soteropolitanos.







