Uma força-tarefa formada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pela Polícia Federal retirou, na manhã de quarta-feira (27), 69 ararinhas-azuis de um criadouro particular localizado na zona rural de Curaçá, no sertão da Bahia. A ação, sem aviso prévio, cumpriu uma decisão judicial da Subseção Judiciária da Justiça Federal de Juazeiro e foi chamada de segunda fase da Operação Blue Hope.
O objetivo é evitar que as aves sejam contaminadas pelo circovírus, causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos — família que inclui araras, papagaios e periquitos —, que já atingiu ao menos 34 aves no local. As 69 ararinhas transferidas serão testadas nas próximas semanas, já que não tinham o vírus no final do ano passado, mas não é certo que continuem livres dele.
As aves serão alojadas num espaço de quarentena do Cemafauna adaptado para recebê-las, no campus da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE), a cerca de 100 km de Curaçá. A ação contou também com apoio do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia) e do Cemafauna (Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga).
Comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, uma equipe de 31 pessoas chegou ao Criadouro Ararinha-azul às 6h, precedida por viaturas da Polícia Federal. O grupo incluiu veterinários — entre eles três peritos criminais da PF especializados na área —, biólogas e tratadores.
No ano passado, vistorias técnicas do ICMBio em parceria com o Inema e a PF constataram que as instalações não cumpriam os protocolos de biossegurança para impedir a disseminação do vírus. Por esse motivo, o criadouro foi inicialmente notificado e, após continuar descumprindo os protocolos, foi multado em R$ 1,8 milhão — R$ 1,3 milhão para a empresa administradora e R$ 500 mil para o seu dono, Ugo Vercillo.
Entre as irregularidades apontadas estão a ausência de isolamento adequado entre espécimes infectados e sadios, o manejo incompatível com as exigências técnicas para a espécie e o risco iminente de disseminação do vírus no meio ambiente.
O circovírus é uma enfermidade altamente contagiosa, potencialmente letal e sem tratamento conhecido, que pode causar má-formação e descoloração de penas, deformações no bico e imunossupressão. A transmissão pode ocorrer pelo contato das aves com penas infectadas ou superfícies contaminadas, como comedouros, poleiros e ninhos. O vírus não é perigoso para humanos ou para aves de produção, como galinhas, mas é extremamente contagioso entre psitacídeos.
A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma espécie endêmica da Caatinga brasileira já extinta na natureza. As aves que integram o programa foram repatriadas da Europa, integraram o criadouro conservacionista em Curaçá e foram soltas na região em 2022. O circovírus nunca havia sido detectado em aves de vida livre no Brasil ou na América do Sul — o vírus é nativo da Austrália —, o que torna sua ocorrência em aves ameaçadas de extinção ainda mais preocupante.
A ideia das autoridades é que o programa de reintrodução na natureza seja retomado somente com aves livres do vírus, cujos efeitos são crônicos, sem cura e podem matar as aves. A iniciativa surge no âmbito de um inquérito que investiga a disseminação do agente patogênico na região de Curaçá, com potencial de danos à fauna e ao equilíbrio ecológico da Caatinga.







