Um homem que passou quase meio século sem saber quem era voltou a abraçar a família na última quinta-feira (16). Edson Almeida Nunes, natural de Brasília, estava há mais de 40 anos afastado dos parentes depois de um acidente que lhe roubou a memória e, com ela, a própria identidade. O reencontro só aconteceu graças a uma força-tarefa coordenada pelo Ministério Público de Alagoas e pela Polícia Federal.
Edson era conhecido no abrigo como "José da Silva", nome criado para que o idoso sem identificação e sem memória, acolhido em Santana do Ipanema depois de um acidente, pudesse tirar um RG e ter acesso a direitos como cidadão. Ele vivia há 13 anos na Casa São Vicente de Paulo, no sertão alagoano, quando sua verdadeira identidade foi descoberta.
Segundo a delegada Rebecca Cordeiro, responsável pela Operação Virtude em Alagoas, o homem permaneceu durante anos sem conseguir se comunicar adequadamente. A ausência de memória e de informações pessoais impediu qualquer tentativa de localizar parentes ou descobrir sua origem. Cerca de cinco anos atrás, ele recuperou parcialmente a fala e conseguiu revelar apenas duas informações: que se chamava Edson e que era natural de Brasília. Apesar de representar um avanço, os dados eram insuficientes para uma identificação oficial. Sem sobrenome, documentos ou qualquer outra referência, as buscas realizadas na época não produziram resultados.
O caso chegou ao conhecimento do Ministério Público de Alagoas por meio da delegada Rebecca Cordeiro, titular da Delegacia de Vulneráveis da Capital, que estava em Santana do Ipanema fazendo fiscalização em instituições de longa permanência. Em seguida, o MP/AL, por iniciativa da promotora de Justiça Marluce Falcão, que coordena o Núcleo de Apoio às Vítimas e Desaparecidos (Navid), acionou o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID) e enviou ofício à Superintendência da Polícia Federal em Alagoas solicitando diligências.
A confirmação da identidade de Edson ocorreu após a realização de um exame de pesquisa e confronto de impressões papilares, conduzido por dois papiloscopistas da PF. A perícia foi realizada em 17 de junho deste ano, a partir de requisição do PLID/MPAL, e obteve resultado em menos de sete horas após a chegada da solicitação. Com apoio de policiais federais lotados na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da Polícia Federal no Distrito Federal (Delefaz/DF), foi possível localizar a família de Edson Almeida Nunes, encerrando décadas de incertezas sobre o paradeiro de seu ente querido.
O reencontro aconteceu no dia 16 de julho. Ao rever a irmã Margareth Landa, de quem ainda guardava lembranças remotas, Edson resumiu o momento em poucas palavras: "Eu estou feliz", segundo informações divulgadas pelo portal IT Notícias. A irmã contou que parte da família já havia perdido a esperança, mas outros nunca desistiram. "Deus preparou esse dia", disse ela, segundo a mesma fonte.
Embora seja conhecido pela divulgação de desaparecidos, o PLID/AL desempenha uma missão muito mais ampla. O programa atua na localização de pessoas desaparecidas, identificação de pessoas sem documentos ou sem memória e busca por familiares de pacientes hospitalizados, e está integrado ao Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (Sinalid) do Conselho Nacional do Ministério Público. Administrado pelo Ministério Público Estadual, o PLID em Alagoas tem índice de resolutividade dos casos registrados acima de 65%, a partir da instalação da ferramenta, em 2018.
Muitas famílias acreditam que, após tantos anos, não há mais possibilidade de reencontro. No entanto, experiências recentes demonstram o contrário. A integração entre os bancos de dados nacionais, os avanços da perícia genética e a revisão sistemática dos registros têm permitido solucionar ocorrências que permaneceram sem resposta por longos períodos, segundo a coordenadora Marluce Falcão.
O MPAL orienta que abrigos de idosos, casas de acolhimento, hospitais e demais instituições comuniquem ao Ministério Público situações em que pessoas estejam institucionalizadas sem identificação familiar ou sem contato com parentes. Quem tiver um familiar desaparecido pode acionar o PLID/AL pelos telefones (82) 2122-5220 ou (82) 99182-2101.







