A advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) Juliana Prates viralizou nas redes sociais ao relatar a morte do irmão, Otacílio Prates Neto, também auditor do órgão, em decorrência do vício em apostas online. Ele morreu em dezembro do ano passado, aos 46 anos, deixando esposa e uma filha de 6 anos.
Segundo Juliana, Otacílio começou a apostar em 2023 e, em cerca de um ano e meio, acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão. O problema só foi descoberto dias antes do Natal, quando a família encontrou uma carta deixada por ele.
"Na carta que deixou, ele dizia que havia perdido o sentido da vida, que havia perdido todo o dinheiro. Ele deixou todas as senhas e quando abri o celular, vi várias contas de bets abertas. Só naquele dia, ele tinha apostado R$ 109 mil", contou Juliana.
Antes da descoberta, os familiares só sabiam que Otacílio enfrentava dificuldades financeiras, atribuídas por ele a investimentos frustrados na bolsa de valores e em criptomoedas. Ele chegou a ser internado por questões psicológicas após um surto, mas não revelou o vício em apostas nem durante o tratamento.
Após a perda, Juliana passou a usar as redes sociais para alertar sobre os riscos das apostas online. Um dos vídeos da advogada ultrapassou 15 milhões de visualizações e foi repostado pela atriz Luana Piovani, ampliando o alcance do relato. "Saí do luto para a luta, porque não quero que ninguém passe por isso", afirmou.
Um levantamento do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação) mostrou que, em 2025, 19% dos usuários de internet no Brasil fizeram algum tipo de aposta online — o equivalente a cerca de 30 milhões de pessoas.
A ludopatia, segundo a Organização Mundial da Saúde, é uma dependência comportamental caracterizada pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar, com forte impacto na saúde mental. O psicólogo Erich Rapold, especialista em Terapia Comportamental Clínica, explica que o vício em apostas costuma passar despercebido por ser uma atividade legal e socialmente aceita.
Entre os sinais de alerta listados pelo especialista estão o uso excessivo do celular, irritação ao ser interrompido, notificações constantes de aplicativos de apostas, oscilações bruscas de humor, isolamento e pedidos de dinheiro com justificativas vagas. Outro comportamento comum é a chamada "perseguição do prejuízo" — continuar apostando após perder muito, na tentativa de recuperar o valor.
Para Juliana, as próprias plataformas deveriam identificar perfis de risco e limitar apostas de jogadores compulsivos. "Meu irmão fez vários jogos por minuto, a plataforma deveria saber que ele não era um jogador responsável", disse.
Quem se identifica com quatro ou mais desses sinais em um período de um ano pode estar com o transtorno, segundo o psicólogo, e deve buscar tratamento multidisciplinar, com psicólogo, psiquiatra e grupos de apoio. Em Salvador, o Grupo Jogadores Anônimos atende pessoas com esse tipo de vício há 18 anos, com reuniões às terças e quintas, no bairro da Pituba. O primeiro contato pode ser feito pelo telefone (71) 98624-0512.







