O presidente do Esporte Clube Vitória, Fábio Mota, abriu a possibilidade de que o clube baiano venha a pedir recuperação judicial para reorganizar suas finanças. A declaração foi dada em entrevista ao canal "Resenha do Leão" e ocorre num contexto em que o Leão acumula créditos a receber de ao menos três clubes — e não consegue cobrar nenhum deles.
"Os clubes do Nordeste, à exceção do Vitória, Sport, Santa Cruz, todos pediram recuperação judicial. E a gente fez um esforço muito grande para não pedir recuperação judicial", disse Mota, segundo informações divulgadas pelo portal Futebol Baiano. "Eu acho até que amanhã ou depois o Vitória também pode pedir recuperação judicial."
O dirigente explicou como o mecanismo funciona na prática: ao pedir recuperação judicial, o clube alonga o prazo de suas dívidas, mas quem deve a ele também entra numa fila de credores. "O Cruzeiro pediu recuperação judicial. O Botafogo pediu recuperação judicial. O Vasco pediu recuperação judicial", enumerou.
O pano de fundo da declaração é uma série de cobranças frustradas. O Vitória tinha direito a receber R$ 1 milhão pela taxa de vitrine pela venda do zagueiro Lucas Halter, mas o pedido de recuperação judicial da SAF do Botafogo congelou esse pagamento. O clube baiano agora passa a integrar a fila de credores da SAF alvinegra, somando-se a outra fila já existente — a da associação do Botafogo, referente à dívida pela compra do atacante Elkeson, ocorrida em 2011.
Há ainda o caso do atacante David da Hora, formado nas categorias de base do Vitória. O Conselho Deliberativo do clube aprovou proposta da Corte Arbitral do Esporte (CAS), que mediou a negociação após a venda do jogador ao Metalist, clube ucraniano, em março de 2022, por 1,2 milhão de euros — aproximadamente R$ 6,6 milhões. O Vitória, no entanto, não recebeu nenhum pagamento. A transação ocorreu justamente no início do conflito armado entre Rússia e Ucrânia, o que complicou a situação.
A dívida original do Metalist com o Vitória era de 1,2 milhão de euros, mas por conta da guerra, o CAS propôs um acordo de pagamento reduzido para 200 mil euros. O pagamento aconteceria noventa dias após o encerramento da guerra, o início de um cessar-fogo que durasse mais de 90 dias, ou o fim das hostilidades por período superior a esse prazo. Para Mota, o problema é que "a guerra também não termina nunca".
O cenário financeiro do Vitória já é delicado de longa data. Quando Fábio Mota assumiu, em 2021, a dívida do clube era de R$ 361,4 milhões. Após renegociações com a Receita Federal, a Justiça do Trabalho e diversos credores, o valor foi reduzido para R$ 274,9 milhões. Reeleito para a presidência no fim do ano passado, com mandato até 2028, Mota afirmou que o planejamento passa pela permanência na Série A, com a expectativa de chegar a 2029 com as finanças equilibradas.
Times nordestinos, que possuem receitas menores em comparação às equipes do eixo Sul-Sudeste, precisam dos valores das vendas de jogadores para equilibrar as contas e projetar crescimento. A fala de Mota, embora não signifique um anúncio formal, mostra que a recuperação judicial deixou de ser um tabu até para quem sempre resistiu a ela.







