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Por trás da festa: como os forrós de Sergipe expõem a face do trabalho precário

Enquanto o governo celebra recordes econômicos nos festejos juninos, trabalhadores informais nas barracas e nas ruas revelam o que os números oficiais não contam.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Emprego
03 de junho, 2026 · 07:52 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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A cada junho, Sergipe se transforma no chamado "País do Forró". Multidões, atrações musicais e barracas coloridas tomam as praças e as orlas. O governo estadual divulga cifras impressionantes: em 2025, os festejos juninos movimentaram quase R$ 400 milhões, atraíram mais de 2,5 milhões de participações em todo o estado e geraram empregos em número recorde. A narrativa oficial é de prosperidade. Mas, para quem observa de perto as calçadas, as caixas de isopor e os carrinhos de cachorro-quente espalhados pelos arredores das festas, a história tem outro tom.

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O poder público e entidades do setor costumam apresentar os festejos como motor econômico capaz de beneficiar toda a cadeia produtiva. Segundo o Observatório de Sergipe, são 118 atividades potencialmente beneficiadas pelos festejos juninos, direta e indiretamente, e cerca de 70 mil pessoas envolvidas somente no mercado formal de trabalho. O problema é que boa parte de quem trabalha nas festas não está nesse mercado formal — e é justamente esse contingente que costuma ser apresentado, de forma genérica, como "empregos indiretos gerados pelo São João".

A crítica ganha peso quando se observa o cenário estrutural do mercado de trabalho na região. A taxa de desocupação no Nordeste chegou a 8,2% no segundo trimestre de 2025 — a mais alta entre todas as grandes regiões do país, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE. E Sergipe não fica fora desse retrato: no consolidado de 2025, o estado registrou taxa de desocupação de 7,9%, acima da média nacional de 5,6%.

Mas o dado mais revelador vai além da taxa de desemprego aberto. No Nordeste, a taxa de desocupação foi de 7,1% no quarto trimestre de 2025, enquanto a taxa de subutilização da força de trabalho atingiu 22,6% — valor substancialmente superior à média nacional. Isso significa que mais de um em cada cinco nordestinos em idade ativa estava em situação de vulnerabilidade ocupacional — seja desempregado, trabalhando menos horas do que precisa ou simplesmente desalentado.

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A informalidade é a outra face da moeda. A taxa de trabalho informal no Brasil alcançou 38,1% da população ocupada em 2025, segundo o IBGE, com as maiores taxas registradas no Maranhão (58,7%), Pará (58,5%) e Bahia (52,8%). Sergipe, vizinho da Bahia e com perfil econômico semelhante, acompanha de perto esse padrão. Trabalhadores informais ficam sem acesso a direitos como seguro-desemprego, FGTS, férias, 13º salário e cobertura previdenciária.

Analistas apontam que a informalidade no Nordeste não é fenômeno novo nem circunstancial. Mesmo com a melhora recente nos índices de emprego, a estrutura do mercado de trabalho regional ainda reflete uma dependência elevada de atividades sazonais e informais, o que mantém os indicadores de estabilidade ocupacional abaixo da média nacional. Os festejos juninos são, nesse contexto, um retrato concentrado dessa realidade: geram renda temporária para muitos, mas emprego estável e com direitos para poucos.

A questão, no fundo, não é negar a importância cultural e econômica do São João. É reconhecer que chamar de "emprego" o trabalho de quem vende latinha numa caixa de isopor, sem contrato, sem previdência e sem garantia de renda depois que as bandeirolas forem recolhidas, é, no mínimo, uma meia-verdade. A festa acaba. A precariedade, não.

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