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De salário inusitado a queijos premiados: a história da baiana que transformou uma cabra em negócio

Técnica em zootecnia de Guanambi recebeu o animal como pagamento em 2020 e, cinco anos depois, sua queijaria acumula medalhas nacionais — enquanto cooperativa do norte da Bahia se torna referência nacional no setor.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Emprego
24 de maio, 2026 · 14:24 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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Em 2020, a técnica em zootecnia Jaine Santana pediu demissão de uma fazenda em Guanambi, no sudoeste da Bahia. Sem vínculo empregatício formal, ela recebeu como último pagamento não um envelope com dinheiro, mas um animal: uma cabra, que mais tarde ganharia o nome de Safira. O que poderia ter sido motivo de desânimo virou o ponto de partida de uma queijaria premiada em concursos nacionais.

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A ideia de transformar o leite de cabra em queijo veio da sogra de Jaine, que já produzia derivados lácteos com leite de vaca. Sem nada parecido na região, ela mesma admite que a proposta soava improvável. Para tirar o projeto do papel, buscou capacitação no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e no Sebrae, e foi desenvolvendo seus próprios produtos artesanais.

O primeiro grande reconhecimento chegou em 2023, quando seu queijo coalho conquistou o prêmio "super ouro" no Encontro Nordestino do Setor de Leite e Derivados (Enel). Foi só o começo. Em outubro de 2024, a JM Queijos Artesanais levou três medalhas no 1º Concurso do Queijo Artesanal da Bahia, em Salvador: ouro com iogurte de tamarindo, prata com queijo coalho caprino e bronze com queijo trufado de doce de umbu, segundo informações divulgadas pelo G1.

Com o crescimento do negócio, o rebanho também cresceu. Além da cabra Safira, o plantel ganhou novas integrantes: Sabrina, Amora, Valéria, Dinha, Pequena e Pretinha. Todas vivem com Jaine, o marido e o filho na zona rural de Guanambi, onde os produtos são fabricados. Atualmente, a queijaria trabalha na regularização formal dos itens junto aos órgãos competentes.

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A história de Jaine não é um caso isolado. No norte da Bahia, a produção de queijos com leite de cabra também tem mudado a vida de comunidades inteiras. A Cooperativa Capribéee, formada por produtores dos laticínios Mãos de Campo, de Jaguarari, e Sabor do Sertão, de Curaçá, aposta na inovação artesanal e tem assegurado ampliação de mercado e reconhecimento nacional.

Com sede na comunidade de Poço de Fora, a Capribéee reúne dezenas de famílias de agricultores que garantem renda com a produção e o beneficiamento do leite de cabra. A agroindústria tem capacidade para processar até 500 litros de leite por dia, transformando a produção local em queijos, iogurtes e outros derivados. Segundo a fonte original, a cooperativa conta com 48 cooperados assalariados, sendo a maioria mulheres — que atuam de forma central na cadeia de agricultura familiar.

No Prêmio Queijo Brasil 2025, em Blumenau (SC), os queijos Tipo Cablanca e Meia Cura conquistaram medalhas de ouro, enquanto Lajinha e Tipo Chevrotin levaram prata. A Capribéee também foi contemplada com o título de melhor queijaria da Bahia.

Para a diretora-presidente da cooperativa, Eugênia Ribeiro, o resultado prova que o semiárido é capaz de competir com qualquer região do país. "As participações e premiações em eventos voltados ao setor de leite e derivados abrem um leque de oportunidades para a Capribéee. Com o nosso queijo tendo mais visibilidade e o reconhecimento em todo o país, possibilita um maior valor agregado e melhora a vida do produtor."

O apoio institucional tem sido decisivo nessa trajetória. Os bons frutos da parceria foram alavancados após o suporte do Governo do Estado por meio do Pró-Semiárido, projeto executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), com cofinanciamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida). O Sebrae também acompanha cooperativas como a Capribéee nas adequações regulatórias e na abertura de mercados.

Do interior baiano ao pódio nacional, as histórias de Jaine e da Capribéee mostram que, no sertão, a caprinocultura deixou de ser apenas subsistência para se tornar cadeia produtiva com força competitiva — e que uma cabra, no lugar certo, pode render muito mais do que se imagina.

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