A cadeia leiteira do sertão nordestino vive um de seus momentos mais expressivos das últimas décadas. A produção de leite no Nordeste cresceu 14,12% no acumulado de 2025 em relação a 2024, impulsionada por avanços tecnológicos, expansão de sistemas produtivos e melhoria genética, com aumento de oferta em praticamente todos os estados, segundo dados do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).
Dentro desse cenário de expansão, o laticínio Natville — com sede em Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano — se movimenta de forma acelerada. O grupo está destinando R$ 700 milhões em recursos próprios à modernização de um laticínio em Jeremoabo (BA) e à construção de uma nova fábrica em Batalha (AL).
Na Bahia, o município de Jeremoabo recebe atenção especial. A Natville finaliza o complexo industrial que vai abrigar a produção de sua nova linha de queijos finos — parmesão, gouda e reino, entre outros. A inauguração está prevista para até o fim de julho, gerando cerca de cem novos postos de trabalho diretos e mais de 500 indiretos.
Em Alagoas, as obras têm escala ainda maior. Somente na construção da fábrica de Batalha, destinada à produção de queijos, cremes e soro de leite, estão sendo investidos cerca de R$ 500 milhões. Serão criados cerca de 300 empregos diretos e mais de seis mil indiretos, em especial na produção de leite no campo. Segundo informações divulgadas pela fonte original, a operação industrial de Batalha começa até outubro deste ano, com captação diária prevista de 600 mil litros.
No começo de abril, o governador de Alagoas, Paulo Dantas, inaugurou uma nova estação de gás natural em Batalha. A medida deve beneficiar os grandes laticínios que estão se instalando na região, como Natville e Alvoar Lácteos — detentora de marcas como Betânia, Camponesa e Embaré. Segundo Dantas, também devem ser oferecidos cursos técnicos gratuitos para formação de mão de obra local para a indústria láctea.
Flávio Dantas, diretor-geral da Natville, destaca a importância socioeconômica da empresa, que hoje emprega mais de mil colaboradores diretos e gera mais de 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos nas propriedades rurais, no comércio e no setor de serviços de cidades do interior nos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe. A empresa concentra suas operações nas regiões semiáridas desses estados, "onde, na maioria das vezes, a atividade do leite é a única opção de renda".
A captação atual da Natville é de cerca de 1,1 milhão de litros de leite por dia, provenientes de mais de duas mil propriedades rurais. A meta é elevar esse processamento para mais de 1,5 milhão de litros por dia nos próximos três anos, além de ampliar a base de fornecedores para cerca de 2,5 mil produtores.
Fundada em 1996, a empresa iniciou suas atividades com processamento diário de aproximadamente 1,2 mil litros de leite. Desde então, expandiu sua operação industrial e rede de fornecedores, consolidando presença em diferentes estados do Nordeste. Com sede em Nossa Senhora da Glória (SE), a Natville encerrou 2025 com faturamento de aproximadamente R$ 1,3 bilhão e projeta atingir cerca de R$ 1,5 bilhão em 2026.
No cenário nacional, o setor também registra bons números. A aquisição de leite cru feita pelos estabelecimentos que atuam sob algum tipo de inspeção sanitária no 1º trimestre de 2026 foi de 6,78 bilhões de litros, segundo dados da pesquisa trimestral do IBGE — acréscimo de 3,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Para a Bahia, os reflexos do movimento são diretos. Estudo do ETENE aponta que a Bahia registrou mais de 160 milhões de litros no primeiro semestre de 2025, um aumento de 7,6% em relação aos seis primeiros meses do ano anterior. De 2020 a 2024, foram aplicados R$ 8,9 bilhões na bovinocultura leiteira e no processamento de laticínios com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Somente em 2024, os investimentos superaram R$ 2,7 bilhões, sendo 93% destinados ao semiárido.
Apesar do avanço na produção, o déficit comercial regional ainda cresceu 10,7% em volume — reflexo de custos elevados, baixa competitividade industrial e dependência de importações, especialmente de leite em pó e queijos. A chegada de novas plantas industriais como as da Natville pode ajudar a reverter parte desse quadro, fortalecendo o processamento local e reduzindo a dependência de produtos trazidos de outras regiões.






