Última hora
Publicidade
PMPA - 6175
Cultura

Primeiro Dia Nacional da Capoeira celebra resistência e projeto social na Liberdade, em Salvador

Com 150 crianças atendidas e um mestre que vê na arte um instrumento de transformação cognitiva, a ACL 8 mostra que a capoeira sobrevive ao descaso muito antes de ganhar data no calendário oficial.

Redação ChicoSabeTudo
15 de julho, 2026 · 00:08 3 min de leitura
Roda de capoeira no bairro da Liberdade, Salvador, Bahia
Roda de capoeira no bairro da Liberdade, Salvador, Bahia

Nesta quarta-feira, 15 de julho de 2026, o Brasil celebra pela primeira vez o Dia Nacional da Capoeira. A data não é aleatória: ela faz referência ao dia em que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a capoeira como patrimônio cultural imaterial do Brasil. A arte que nasceu forjada como instrumento de resistência dos povos escravizados finalmente ganha reconhecimento oficial no calendário nacional.

Publicidade

O Projeto de Lei 7536/10, de autoria do deputado baiano Márcio Marinho (Republicanos-BA), já havia sido aprovado pela Câmara em 2014. No entanto, como o dia 20 de novembro — data originalmente escolhida — já se tornou feriado nacional em 2023, o Senado aprovou emenda mudando a celebração para 15 de julho. Reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan, a capoeira também ganhou destaque internacional ao ser declarada patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco.

Atualmente praticada em mais de 170 países, a capoeira é vetor de internacionalização da cultura afro-brasileira. Mas é nas ruas de Salvador, berço histórico da arte, que o seu papel social mais urgente se revela — longe dos holofotes e com orçamento incerto.

No bairro da Liberdade, reduto da cultura afro-baiana na capital baiana, a Associação Cultural Linha 8 (ACL 8) é um desses exemplos de persistência. Segundo informações divulgadas pelo Bahia Notícias, a instituição foi fundada em 16 de agosto de 2005 por moradores que queriam cuidar das crianças do bairro por meio da educação, do esporte e da cultura. O próprio nome carrega memória ancestral: no início do século XX, quando os primeiros bondes elétricos chegaram a Salvador, a Liberdade era identificada pelo número 8 — a Linha 8 — para moradores que não sabiam ler.

Publicidade

Hoje, de acordo com a mesma reportagem, a ACL 8 atende cerca de 150 crianças com oficinas de capoeira e boxe, financiadas em parceria com a Secretaria de Promoção Social (Sempre) da Prefeitura de Salvador. O projeto já abrigou reforço escolar, artesanato e cursos profissionalizantes, mas enfrenta dificuldades para se manter. "Precisamos muito de apoio para manter a associação. Estamos fazendo campanhas de doação para garantir que esse trabalho de base não pare", alertou Derivaldo Silva Pereira, presidente da ACL 8, em entrevista ao portal baiano.

Quem dá vida ao tatame da ACL 8 é Mestre Careca, nome reconhecido nas rodas de Salvador e da América Latina. Com os primeiros contatos com a capoeira em 1978, em Itaparica, ele cruzou o caminho da associação há cerca de dois anos e ali encontrou o que acredita ser a essência da arte. Para ele, a capoeira vai além da ginga — é, nas suas próprias palavras, "uma verdadeira tecnologia afro-brasileira espetacular", com potencial para desenvolver o cognitivo de crianças nas escolas.

O mestre vê a criação do Dia Nacional como reflexo direto do esforço de instituições como a ACL 8. E deixou clara a sua fidelidade ao projeto independentemente de verbas ou aprovações oficiais: mesmo sem projeto aprovado, afirmou que seguirá fazendo parte desse processo. É essa teimosia — de mestres, presidentes de associação e crianças que giram o berimbau sem saber se o mês que vem terá patrocínio — que mantém a capoeira viva muito além de qualquer calendário.

Publicidade

O projeto que cria o Dia Nacional da Capoeira reconhece o papel da manifestação como expressão cultural de origem afro-brasileira e propõe sua inclusão no calendário oficial do país. A valorização, porém, precisa ir além da institucionalização de uma data comemorativa — o reconhecimento só será efetivo se vier acompanhado de políticas públicas, investimentos e respeito às lideranças tradicionais, na avaliação de representantes do setor ouvidos pela imprensa. No bairro da Liberdade, essa cobrança já tem endereço e rosto.

Publicidade

Leia também