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Cultura

Pesquisador baiano defende que Oyó é uma das origens da civilização brasileira em obra trilíngue

Arquiteto da UFBA lança livro sobre o patrimônio cultural iorubá e afirma que terreiros, orixás e palavras em iorubá no cotidiano do Brasil têm raiz na cidade nigeriana de Oyó.

Redação ChicoSabeTudo
05 de julho, 2026 · 03:57 3 min de leitura
Capa do livro OYÓ: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá, lançado na UFBA em junho de 2026
Capa do livro OYÓ: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá, lançado na UFBA em junho de 2026

Para o arquiteto e pesquisador Fábio Macêdo Velame, diretor da Faculdade de Arquitetura da UFBA, Oyó não é apenas uma cidade nigeriana. "É uma das origens da civilização brasileira", afirma ele. A frase resume o argumento central de uma obra que acaba de chegar às prateleiras — e que promete reposicionar o olhar sobre as raízes culturais do Brasil.

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O lançamento do livro OYÓ: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá aconteceu no Salão Nobre da Reitoria da UFBA, durante a abertura da 4ª Conferência Internacional LASUCAS 2026. Velame assina a obra ao lado dos pesquisadores Paula Dias Gomes, Oluwatoyin Sogbesan e Tunji Adejumo — equipe que reúne trajetórias em três países.

A publicação é resultado de uma cooperação técnico-científica internacional entre a Universidade Federal da Bahia, o Palácio Real de Oyó, a Ajayi Crowther University e a University of Lagos Akoka. O trabalho levou cinco anos para ser concluído e integra um conjunto de iniciativas voltadas ao reconhecimento da cidade de Oyó como Patrimônio Mundial da UNESCO.

O pesquisador usa uma comparação direta para explicar o peso histórico de Oyó: "Assim como Meca é referência para o mundo muçulmano, Oyó tornou-se uma referência ancestral para o povo-de-santo no Brasil." Na visão dele, cada terreiro de Candomblé, cada orixá cultuado, cada palavra preservada em iorubá carrega essa memória viva.

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Entre os séculos XVIII e XIX, os povos iorubás vindos do Império de Oyó aportaram em Salvador e Cachoeira, trazidos pelo último ciclo do tráfico transatlântico. Essa presença moldou a identidade baiana, deixando marcas indeléveis na língua, na culinária, na música e na estrutura dos terreiros de Candomblé — a exemplo do Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca), do Gantois e do Ilê Axé Opô Afonjá, todos tombados pelo IPHAN.

O livro reconstrói essa genealogia ao mapear na Nigéria os festivais de orixás — como Xangô, Iemanjá e Ogum —, as sociedades tradicionais, como Yalodê, Gèlèdé e Egúngun, e os saberes artesanais e políticos de Oyó. Ao reconstruir essas conexões a partir do território de origem, a obra documenta manifestações culturais, sistemas políticos tradicionais, conhecimentos ancestrais e práticas comunitárias preservadas em Oyó e que encontraram continuidade em diferentes regiões brasileiras, com destaque para a Bahia.

A escolha de publicar em três idiomas carrega um significado político deliberado. O livro foi escrito em português, inglês e iorubá: o primeiro para alcançar o leitor brasileiro; o segundo porque é a língua oficial da Nigéria; e o terceiro como gesto de valorização e descolonização do conhecimento, reafirmando a voz dos próprios povos iorubás sobre sua história. Segundo informações divulgadas pela fonte original, o projeto foi contemplado nos editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e conta com apoio do Governo do Estado por meio da Secretaria de Cultura.

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Velame deixa claro que a obra vai além do registro acadêmico. O livro, segundo ele, "devolve a essa história o seu nome de origem e ajuda a construir a rede internacional necessária para que Oyó seja reconhecida pela UNESCO como patrimônio de toda a humanidade." Para o pesquisador, trata-se de um instrumento de luta política — um compromisso com a permanência e a resistência da civilização iorubá no mundo.

O processo de formação identitária iorubá ultrapassou as fronteiras do continente africano, projetando-se para o Novo Mundo através da diáspora atlântica. Escravizados oriundos de diferentes regiões da Iorubalândia foram agrupados e classificados como "nagôs" nas colônias americanas, principalmente no Brasil. Na Bahia, a forte presença nagô influenciou profundamente a formação do candomblé e de outras práticas religiosas afro-brasileiras.

O lançamento reacende um debate urgente: como o Brasil reconhece — ou ignora — as civilizações africanas que ajudaram a construir sua identidade? Para Fábio Velame, preservar a memória de Oyó é preservar parte da própria história brasileira. Uma história que ainda vive nos terreiros, nas festas, na música e nas palavras que o país usa sem saber de onde vieram.

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