Técnicos de som, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia e seguranças — esses são os protagonistas de "CÃO", o novo espetáculo que desembarca em Salvador a partir do dia 18 de junho. A peça questiona o lugar dos trabalhadores que sustentam grandes estruturas de poder sem nunca aparecer nas manchetes.
A trama parte de uma situação-limite: uma equipe de profissionais passa dias preparando um teatro para a posse de um líder recém-eleito quando recebe a notícia de que ele morreu antes de assumir. O caos que se instala — ordens contraditórias, protocolos absurdos e pressões sem fim — vira o motor dramático da peça. Em cena, técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia, seguranças e operários entram numa maratona exaustiva de preparação para garantir que uma nova posse ocorra, num jogo vertiginoso de ordens contraditórias, protocolos absurdos e reorganizações impossíveis.
Foram precisos 20 anos de flerte para que os premiados grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, engatassem um namoro. O resultado é a primeira parceria oficial entre as duas companhias. Com mais de três décadas de trajetória, o Clowns de Shakespeare consolidou-se como um dos grupos mais importantes do teatro brasileiro, com circulação por todas as capitais do país e apresentações em países como Equador, Colômbia, Peru, Chile, Uruguai, Bolívia, México, Portugal e Espanha. Já o Magiluth, surgido em Pernambuco em 2004, tornou-se referência nacional por suas criações experimentais e pela investigação permanente de novas linguagens cênicas.
Livremente inspirado na tragédia shakespeariana "Coriolano", o espetáculo não pretende adaptar o clássico inglês, mas atravessá-lo pelas urgências latino-americanas do presente. O que interessa aos grupos é justamente o conflito de classes, a manipulação política, os mecanismos de poder e a precarização da vida contemporânea.
Segundo o diretor Fernando Yamamoto, o texto foi "escrito do zero, com a ideia de falar não só da precarização do trabalho, mas também, especificamente, do nosso metiê, dessa camada invisibilizada de técnicos e carregadores, desse extrato que opera para que a estrutura dos espetáculos funcione". Criado a partir de cinco residências artísticas realizadas entre Natal, Recife e Rio de Janeiro, o trabalho aproxima as linguagens dos dois coletivos — o realismo fantástico, a comicidade popular e a musicalidade do Clowns, somados à pulsação contemporânea e performativa do Magiluth.
Para Yamamoto, o espetáculo cria um riso que, ao mesmo tempo em que diverte, faz refletir sobre temas urgentes e profundos, especialmente as relações de trabalho. O humor, nesse contexto, não alivia a crítica, mas a expõe. O diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi, reforça o olhar sobre quem fica nas sombras: "Quando partimos para investigar 'Coriolano', foi ficando claro que o que nos movia era o olhar para quem trabalha. Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas."
Após temporadas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, o espetáculo volta ao Nordeste para a última etapa da circulação do Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada vai de 18 de junho a 6 de julho, no CineTeatro 2 de Julho, na Federação, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos e segundas, às 19h. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), com vendas pelo site bb.com.br/cultura.
A temporada soteropolitana terá recursos de acessibilidade. Haverá intérpretes de Libras nos dias 21 e 28 de junho e audiodescrição em 5 de julho. Também está previsto um bate-papo aberto ao público sobre a obra ao longo da circulação. No palco, essa engrenagem é conduzida por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. O espetáculo tem patrocínio do Banco do Brasil, com incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).







