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Peça "CÃO" chega a Salvador com trabalhadores invisíveis no centro do palco

Espetáculo dos grupos nordestinos Clowns de Shakespeare e Magiluth ocupa o CineTeatro 2 de Julho de 18 de junho a 6 de julho, com ingressos a partir de R$ 15.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
06 de junho, 2026 · 18:54 3 min de leitura
Elenco do espetáculo CÃO em cena, com trabalhadores de eventos em situação de caos nos bastidores de um teatro
Elenco do espetáculo CÃO em cena, com trabalhadores de eventos em situação de caos nos bastidores de um teatro

Técnicos de som, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia e seguranças — esses são os protagonistas de "CÃO", o novo espetáculo que desembarca em Salvador a partir do dia 18 de junho. A peça questiona o lugar dos trabalhadores que sustentam grandes estruturas de poder sem nunca aparecer nas manchetes.

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A trama parte de uma situação-limite: uma equipe de profissionais passa dias preparando um teatro para a posse de um líder recém-eleito quando recebe a notícia de que ele morreu antes de assumir. O caos que se instala — ordens contraditórias, protocolos absurdos e pressões sem fim — vira o motor dramático da peça. Em cena, técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia, seguranças e operários entram numa maratona exaustiva de preparação para garantir que uma nova posse ocorra, num jogo vertiginoso de ordens contraditórias, protocolos absurdos e reorganizações impossíveis.

Foram precisos 20 anos de flerte para que os premiados grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, engatassem um namoro. O resultado é a primeira parceria oficial entre as duas companhias. Com mais de três décadas de trajetória, o Clowns de Shakespeare consolidou-se como um dos grupos mais importantes do teatro brasileiro, com circulação por todas as capitais do país e apresentações em países como Equador, Colômbia, Peru, Chile, Uruguai, Bolívia, México, Portugal e Espanha. Já o Magiluth, surgido em Pernambuco em 2004, tornou-se referência nacional por suas criações experimentais e pela investigação permanente de novas linguagens cênicas.

Livremente inspirado na tragédia shakespeariana "Coriolano", o espetáculo não pretende adaptar o clássico inglês, mas atravessá-lo pelas urgências latino-americanas do presente. O que interessa aos grupos é justamente o conflito de classes, a manipulação política, os mecanismos de poder e a precarização da vida contemporânea.

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Segundo o diretor Fernando Yamamoto, o texto foi "escrito do zero, com a ideia de falar não só da precarização do trabalho, mas também, especificamente, do nosso metiê, dessa camada invisibilizada de técnicos e carregadores, desse extrato que opera para que a estrutura dos espetáculos funcione". Criado a partir de cinco residências artísticas realizadas entre Natal, Recife e Rio de Janeiro, o trabalho aproxima as linguagens dos dois coletivos — o realismo fantástico, a comicidade popular e a musicalidade do Clowns, somados à pulsação contemporânea e performativa do Magiluth.

Para Yamamoto, o espetáculo cria um riso que, ao mesmo tempo em que diverte, faz refletir sobre temas urgentes e profundos, especialmente as relações de trabalho. O humor, nesse contexto, não alivia a crítica, mas a expõe. O diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi, reforça o olhar sobre quem fica nas sombras: "Quando partimos para investigar 'Coriolano', foi ficando claro que o que nos movia era o olhar para quem trabalha. Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas."

Após temporadas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, o espetáculo volta ao Nordeste para a última etapa da circulação do Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada vai de 18 de junho a 6 de julho, no CineTeatro 2 de Julho, na Federação, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos e segundas, às 19h. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), com vendas pelo site bb.com.br/cultura.

A temporada soteropolitana terá recursos de acessibilidade. Haverá intérpretes de Libras nos dias 21 e 28 de junho e audiodescrição em 5 de julho. Também está previsto um bate-papo aberto ao público sobre a obra ao longo da circulação. No palco, essa engrenagem é conduzida por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. O espetáculo tem patrocínio do Banco do Brasil, com incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

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