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O intelectual sergipano que a Bahia adotou e Sergipe esqueceu completa 100 anos

Nascido em Capela (SE), Nélson de Araújo deixou marca profunda na cultura baiana como escritor, folclorista e professor da UFBA, mas morreu sem o reconhecimento que merecia em sua terra natal.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
31 de maio, 2026 · 17:48 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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Em 4 de setembro de 2026, Nélson Correia de Araújo completaria cem anos. Nascido em Capela, no agreste sergipano, ele passou a maior parte da vida em Salvador, onde construiu uma das trajetórias intelectuais mais ricas — e mais ignoradas — da literatura brasileira do século XX.

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Jornalista, fotógrafo, tradutor, editor, ensaísta, cronista, romancista, folclorista e teatrólogo: a lista de vocações de Nélson de Araújo é longa. Segundo informações divulgadas pelo colunista Marcos Cardoso no portal Infonet, de Sergipe, ele foi também professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e chegou a acumular cerca de três dezenas de livros publicados ao longo da vida.

Criado em Aracaju, onde estudou no Colégio Salesiano, Nélson se mudou para Salvador ainda jovem — aos 23 anos, depois de ser fichado como comunista pela Secretaria de Segurança Pública de Sergipe. Na Bahia, logo ganhou espaço no mundo editorial. Em 1956, foi trabalhar na Livraria Progresso Editora, onde exerceu funções que iam de revisor de provas a editor de originais. Em 1960, ao lado do geógrafo Milton Santos, criou a Coleção Tule, seção editorial da Imprensa Oficial da Bahia voltada ao apoio de escritores baianos.

No mesmo ano, foi convidado para lecionar História do Teatro na UFBA. Mais tarde, tornou-se pioneiro no ensino de Expressões Dramáticas do Folclore. Dirigiu o Centro de Estudos Afro-Orientais da universidade e foi um dos fundadores da Revista Afro-Ásia — periódico que nasceu em 1965 e que, décadas depois, se consolidaria como um dos mais importantes espaços do debate acadêmico brasileiro sobre África e diáspora africana.

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Apaixonado pelo Recôncavo Baiano, Nélson de Araújo produziu ficção literária de qualidade reconhecida pela crítica, mas que jamais alcançou o grande público. Em 1987, publicou "Três novelas do povo baiano", pela Editora Ianamá. Quatro anos depois, lançou "1591 – A Santa Inquisição na Bahia e outras estórias" pela Editora Nova Fronteira. Foi esse livro que levou Jorge Amado a chamá-lo, publicamente, de "mestre da ficção brasileira" — elogio raro, vindo de quem era então o nome mais célebre das letras baianas.

Mas o reconhecimento não veio em forma de vendas nem de fama popular. Avesso ao marketing, Nélson de Araújo trilhou o caminho oposto ao dos best-sellers: festejado pela crítica especializada, mas ausente das prateleiras mais visíveis. Em 1992, a jornalista e escritora Marilene Felinto, então articulista da Folha de São Paulo, o elogiou ao notar o "português bem escrito" de sua prosa — e observou que "o Nordeste sempre falou e escreveu o melhor português do Brasil".

O próprio Jorge Amado atribuía o relativo anonimato de Nélson à falta de uma edição nacional com alcance suficiente para chegar até os centros críticos do Rio de Janeiro e de São Paulo. A distância geográfica e cultural entre o Nordeste e o eixo editorial do país custou caro à obra de um escritor que, segundo informações da fonte original, o geógrafo Milton Santos ajudou a projetar no mundo editorial baiano dos anos 1960.

Nélson de Araújo morreu em Salvador no dia 7 de abril de 1993, sem conhecer a fama que sua obra merecia. Trinta e três anos depois, com o centenário de nascimento chegando em setembro de 2026, seu nome ainda é quase desconhecido em Sergipe — o estado que o viu nascer, mas que ele precisou deixar para ser, ao menos em parte, reconhecido.

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