Todo ano, quando junho chega, o Brasil inteiro canta forró, xote e baião nas fogueiras e arraiás. São músicas que parecem sempre ter existido, gravadas na memória de gerações. Mas quem as escreveu? Para a maioria do público, essa pergunta não tem resposta — e é exatamente essa invisibilidade que incomoda os compositores da trilha sonora do São João.
Em entrevistas ao portal A Tarde, segundo informações divulgadas pela publicação, compositores como João Sereno, Petrúcio Amorim, Maciel Melo, Jó Miranda e Verlando Gomes abriram o jogo sobre os bastidores da criação musical nordestina e sobre o desafio de ter o nome lembrado tanto quanto as próprias canções.
A história do baiano João Sereno ilustra bem esse cenário. Natural de Juazeiro, no norte da Bahia, João Sereno saiu do interior para o mundo da música sem nunca ter estudado o ofício de forma formal — aprendeu tudo sozinho. Compositor disputado, ele conhece profundamente a cultura popular do Vale do São Francisco e tem canções gravadas por nomes como Dominguinhos, Adelmário Coelho e Maciel Melo. Foi justamente num bar de Salvador que percebeu o tamanho do sucesso de uma de suas composições: estava lá o pessoal cantando sua música — sem saber quem a havia criado. Quando se identificou como o autor, foi recebido com desconfiança, até revelar o nome que o frequentador já conhecia de cor.
Segundo a fonte original, o compositor resumiu assim o que aconteceu naquele dia: a música havia chegado onde seu nome ainda não tinha alcançado. Esse paradoxo — ser famoso sem ser reconhecido — define a trajetória de toda uma geração de autores do forró.
O pernambucano Petrúcio Amorim, nascido em Caruaru e um dos mais prolíficos da música nordestina, afirma que o público historicamente atribui as composições aos cantores que as gravam. Segundo o portal A Tarde, ele precisava pedir às pessoas que checassem a contracapa do disco para provar que era o verdadeiro autor daquelas canções. Mais de 200 músicas gravadas por artistas como Jorge de Altinho e Flávio José levam a sua assinatura — mas poucos sabem disso.
Maciel Melo, do Vale do Pajeú (PE), aponta duas razões para essa invisibilidade. A primeira é cultural: quando o compositor não canta, tende naturalmente a ficar em segundo plano. A segunda é estrutural. Toda vez que uma música toca em espaço público ou evento coletivo, o pagamento dos direitos autorais de execução pública deve ser feito aos compositores por meio do Ecad — mas rádios e plataformas de streaming raramente citam o nome de quem escreveu a canção, apagando ainda mais essa identidade.
O quadro dos direitos autorais é igualmente preocupante. Em 2024, o Ecad distribuiu R$ 5,9 milhões em direitos autorais no segmento de festas juninas para mais de 10,2 mil compositores e artistas. A expectativa, no entanto, era de alcançar um valor 50% maior, mas a inadimplência de prefeituras, governos estaduais e promotores impede a arrecadação plena dos valores devidos à classe artística. Muitos compositores só recebem direitos autorais em épocas específicas como as festas juninas, já que algumas músicas típicas não costumam tocar nas rádios e estabelecimentos durante o restante do ano.
O cantor e compositor baiano Jó Miranda, revelado com a música "Lembro", reforça que o problema vai além do financeiro. Segundo a reportagem original, para ele o reconhecimento tem um valor simbólico que nenhum cachê substitui: poder ter o nome citado no palco, na TV, em qualquer espaço onde a música toque. "Todo mundo busca seu lugar no sol, seu nome na história", disse.
Para artistas que vivem da criação musical, o não pagamento dos direitos autorais representa muito mais do que prejuízo financeiro — é uma negação de existência. A frase resume, com precisão, o que esses compositores vivem há décadas: seus versos atravessam gerações, embalando fogueiras do Oiapoque ao Chuí, enquanto seus nomes ficam de fora da festa.






