Quem foi Almerinda Farias Gama? A pergunta pode soar simples, mas a resposta revela uma das maiores injustiças da memória histórica brasileira. Advogada, jornalista, pianista, poetisa, sindicalista e política, Almerinda foi mulher negra nascida em Maceió, voz importante na conquista do voto feminino em 24 de fevereiro de 1932. Mesmo assim, permanece desconhecida da maioria dos brasileiros — inclusive em Alagoas, seu estado natal.
É esse apagamento que o Instituto Raízes de Áfricas quer enfrentar. Neste domingo (25), a entidade realiza os Diálogos Afro-Pedagógicos na Escola Estadual Rosa Maria Paulino da Fonseca, em Marechal Deodoro (AL), das 13h às 16h40. A proposta é levar o letramento racial a meninos e meninas do ensino médio, usando o Dia de África como ponto de partida para falar sobre liberdade, identidade e história negra.
Sindicalista, jornalista e feminista, Almerinda foi ofuscada pelas colegas brancas e de classe alta que se tornaram os rostos públicos do sufrágio feminino. Durante muito tempo, sua trajetória e importância política foram silenciadas como parte de uma estratégia racista que costuma deslegitimar o protagonismo de mulheres negras.
Em 1929, ela se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar, após descobrir que um colega homem recebia 300 réis pelo mesmo serviço que ela fazia por 200 réis. Sua atuação estava enraizada no sindicalismo — ela presidiu o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e Secretárias do Distrito Federal — e não se limitava ao direito abstrato ao voto, mas à cidadania plena da mulher negra e trabalhadora.
A ação do Instituto inclui uma programação diversificada: performance de estudantes da escola intitulada "Eu não consigo respirar", debate aberto, merenda coletiva e, ao final, o plantio de uma muda de Baobá. A iniciativa faz parte do Projeto Baobá, criado em 2021 pelo Instituto Raízes de Áfricas em parceria com a então deputada estadual Jó Pereira, com o objetivo de africanizar territórios a partir do plantio da árvore-mãe, como símbolo de sacralidade e ancestralidade do povo negro.
A jornalista Mica Pereira conduz uma das principais conversas do evento. A jovem jornalista traçou um caminho parecido ao de Almerinda: saiu da zona de conforto, desafiou distâncias geográficas e apostou na comunicação como ferramenta de transformação — e esse paralelo é o próprio fio condutor da conversa com os jovens.
Conta a história que o povo africano escravizado era obrigado, antes de embarcar nos navios negreiros, a dar voltas em torno de um Baobá — chamada "Árvore do Esquecimento" — como forma de forçar o apagamento de suas culturas. Na tradição africana, a árvore simboliza a conexão entre o mundo sobrenatural e o material, entre os vivos e os mortos. Plantar uma muda, portanto, é um gesto de reversão dessa memória.
Segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto, a ação conta com o apoio da Secretaria de Estado da Mulher, da Secretaria Municipal de Comunicação de Maceió, do deputado federal Paulão e de Jó Pereira. Almerinda Farias Gama morreu aos 99 anos, em 31 de março de 1999. Seu nome ainda não integra os currículos escolares de forma consistente — e é justamente esse vazio que os Diálogos Afro-Pedagógicos tentam preencher.







