O músico e compositor Manno Góes fez críticas contundentes ao Carnaval de Salvador em entrevista ao programa Bahia Notícias no Ar, da rádio Antena 1 Salvador. Para ele, a festa mais famosa do país vive um período de estagnação — e o bolso do turista é parte central do problema.
O artista colocou o preço da folia soteropolitana no banco dos réus com uma comparação difícil de ignorar: segundo ele, passar oito dias de Carnaval em Salvador pode custar mais do que uma viagem a Nova Iorque ou dez dias na França visitando vinhedos. Os números do mercado confirmam que a festa não é barata. Passar o Carnaval em Salvador costuma ser mais caro que em outros destinos da Bahia, e para 5 a 7 dias o gasto total varia de R$ 3.000 a R$ 8.000 por pessoa, dependendo do padrão de viagem. Quem quer o conforto dos camarotes pode gastar ainda mais: a entrada masculina do Camarote Salvador no sábado de Carnaval, por exemplo, chega a R$ 4.235.
Na avaliação de Góes, esse encarecimento progressivo tem consequências diretas no perfil de quem frequenta a festa. O músico afirmou que os turistas de fora do estado deixaram de vir com a mesma frequência e que o público atual é sustentado principalmente pelo turismo interno — moradores do interior da Bahia se deslocando para a capital. A comparação com São Paulo foi direta: para Góes, a capital paulista virou concorrente real da folia baiana na disputa pelo folião nacional.
Mesmo com os alertas do artista, os dados oficiais do Carnaval 2026 mostram que a festa bateu recordes em números absolutos. Mais de 3,8 milhões de turistas curtiram a festa nas 13 zonas turísticas baianas, com injeção de R$ 8,1 bilhões na economia, superando as marcas históricas de 2025, quando foram registrados 3,5 milhões de visitantes e R$ 7 bilhões de receita. A contradição entre os recordes oficiais e a percepção de Góes sobre a perda de turistas qualificados é justamente o nó que o artista quer ver desatado.
Outro ponto levantado por Manno Góes foi a ocupação do espaço da folia. Para ele, a mecânica entre blocos, camarotes e o espaço gratuito — a chamada "pipoca" — está travada há muito tempo, sem evolução. A pipoca, nome dado à festa fora das cordas, segue como uma das marcas do Carnaval de Salvador e continua sendo a principal escolha para quem deseja curtir a folia com menor custo. O problema, segundo o compositor, é que esse espaço popular não recebe atenção suficiente da organização do evento, ameaçando justamente o que dá identidade ao carnaval de rua.
Góes também tocou em outro ponto sensível: a relação da Bahia com sua própria cultura. Segundo ele, historicamente o estado confundiu cultura com entretenimento, criando uma indústria de festas que empurrou talentos musicais para o eixo Rio-São Paulo. Para o artista, porém, nem tudo são más notícias nessa frente: ele celebrou o fato de o Axé ter perdido o monopólio do palco baiano, abrindo caminho para novos artistas que não precisam ser, nas palavras dele, "escravos do trio elétrico".
No final das contas, Manno Góes não jogou a toalha para o Carnaval de Salvador. Ao contrário — reafirmou que a festa continua sendo a melhor do país e inigualável, com diferenciais que nenhuma outra praça consegue replicar. "Salvador tem o dendê, Salvador tem o Axé", disse ao encerrar sua análise. A cobrança, portanto, vem de dentro: de quem ama a festa e não quer vê-la encolher por falta de gestão e excesso de preço.







