A cantora Lara Amélia, filha do sanfoneiro Flávio José, usou as redes sociais para se pronunciar sobre a ausência do pai nos festejos juninos da Bahia em 2026. Em um comentário publicado no perfil "São João na Bahia", em parceria com o jornalista Gabriel Carvalho, ela classificou o episódio como a "morte do São João" e defendeu o legado do artista frente ao que chamou de desrespeito ao forró tradicional.
A cantora afirmou que o processo de descaracterização das festas juninas não é novo. Segundo ela, o fenômeno vem se intensificando nos últimos anos, reduzindo progressivamente o espaço para nomes ligados à tradição nordestina nas grades de atrações dos municípios baianos.
No desabafo, Lara Amélia descreveu o pai como "a cultura nordestina encarnada em pele e osso" e ressaltou a importância de ter um artista da sua envergadura ainda em atividade e resistindo às pressões do mercado. O próprio Flávio José respondeu ao post com uma mensagem de agradecimento, em nome da cultura e das tradições nordestinas.
O cancelamento dos shows foi confirmado na terça-feira (9), após o fracasso das negociações entre a equipe do cantor e o Ministério Público da Bahia (MP-BA). Na segunda-feira (8), representantes do artista e integrantes do MP se reuniram em busca de um consenso, mas o encontro terminou sem acordo — inclusive propostas apresentadas pelo próprio representante do cantor foram recusadas.
O impasse gira em torno de uma recomendação do MP-BA que orienta os municípios a adequarem os contratos de artistas a parâmetros baseados na média dos cachês pagos em 2025, corrigidos pelo IPCA. O cachê atual de Flávio José está em R$ 350 mil — um aumento de cerca de 40% em relação ao valor praticado no ano passado, de R$ 250 mil. A promotora Rita Tourinho lamentou a decisão do artista, mas destacou que a medida abrange mais de 100 artistas e segue critérios técnicos.
Para tornar a comparação mais concreta, dados apontam que a dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano receberá R$ 905 mil por show para apresentações na Bahia — cerca de três vezes o cachê cobrado pelo forrozeiro paraibano. A discrepância alimenta o argumento levantado por Flávio José e pela filha de que artistas sem ligação histórica com a festa junina são tratados de forma mais favorável do que os guardiões do gênero.
Com a agenda oficial divulgada, ficou confirmado que nenhuma cidade baiana consta no roteiro junino de Flávio José em 2026. O cantor tem apresentações marcadas em estados como Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Alagoas. Ao todo, aproximadamente 15 prefeituras baianas que haviam contratado o artista ficaram sem o show.
Não é a primeira vez que Lara Amélia entra na disputa pública pela valorização do forró. Em 2023, ela já havia defendido o pai após um episódio em Campina Grande, na Paraíba, em que o show de Flávio José foi reduzido para dar espaço ao sertanejo Gusttavo Lima. Na ocasião, ela afirmou que a briga não era entre os dois artistas, mas "entre a defesa da cultura nordestina e a invasão de outros ritmos".
O debate sobre os cachês e a identidade dos festejos juninos na Bahia segue em aberto. Para os fãs do forró tradicional na região do São Francisco, a ausência de Flávio José neste São João é mais do que uma disputa contratual — é um sinal dos rumos que a festa vem tomando.







