O São João é a maior festa cultural da Bahia e um dos eventos mais populares do Nordeste. Com raízes religiosas e folclóricas, os festejos juninos misturam quadrilhas, fogueiras, trajes típicos e, claro, muita música. Mas nos últimos anos, o debate sobre o que é "forró de verdade" ganhou força dentro e fora dos arraiais.
De um lado, o forró tradicional — também chamado de pé-de-serra. De outro, um universo de vertentes modernas que inclui piseiro, arrocha, forró eletrônico e sertanejo universitário. A convivência entre os dois mundos é o retrato sonoro do São João atual.
O que define o forró raiz
O forró de raiz inclui diversos ritmos como xote, baião, xaxado e marchinhas, e é tocado basicamente com uma sanfona, um triângulo e a zabumba. Essa formação ficou conhecida como a "Santíssima Trindade do Forró" e tem em Luiz Gonzaga sua maior referência histórica. O forró pé-de-serra surgiu com Luiz Gonzaga nos anos 1940 e segue vivo até hoje, com letras que falam da seca, da saudade, da vida no campo e dos costumes nordestinos.
O forrozeiro Del Feliz, referência do gênero na Bahia, resume bem a questão. Segundo ele, a sanfona, a zabumba e o triângulo são elementos fundamentais e identificadores do forró raiz, um patrimônio cultural registrado. Para Del Feliz, o forró é um aglomerado de ritmos como arrasta-pé, baião, xaxado, rojão, xote e coco.
E o que é o piseiro?
Criado no interior do Nordeste nos anos 2010, o piseiro se caracteriza pela simplicidade da união do teclado eletrônico com a voz, em um tipo de forró mais suingado. O piseiro nasceu de uma experiência com teclado e é considerado eletrônico, distanciando-se do forró tradicional. Nomes como João Gomes, Nattan, Mari Fernandez e Vitor Fernandes são os principais representantes do estilo nos palcos atuais.
A revolução definitiva no campo do forró moderno aconteceu no fim do século passado, com a banda Mastruz com Leite, que estilizou o forró, acrescentando ao ritmo tradicional uma nova linguagem, com equipamentos tecnológicos, novas batidas e arranjos musicais. A partir daí, a distância entre o pé-de-serra e as novas vertentes só cresceu.
Enquanto as quadrilhas e arraiais mantêm viva a tradição com o pé-de-serra, os grandes shows nas cidades atraem multidões com forró eletrônico, romântico e, mais recentemente, com o piseiro. O debate sobre autenticidade segue aceso, mas Del Feliz pontuou que a cultura não é estática e passa por mudanças, mas ressaltou que a identidade do forró tradicional foi construída ao longo de décadas.
A Bahia investe na tradição
Para o São João de 2026, o Governo da Bahia tomou uma posição clara. O governo decidiu investir no fortalecimento da identidade cultural do São João, e pelo menos 25% dos recursos destinados às apresentações artísticas serão aplicados na contratação de artistas do autêntico forró, com ênfase no xaxado, baião, xote e no forró pé-de-serra.
Ao todo, aproximadamente R$ 146 milhões serão destinados ao apoio das cidades selecionadas, incluindo recursos para contratação de atrações artísticas e realização das programações culturais. A Sufotur habilitou 283 municípios baianos para os festejos juninos deste ano em todos os 27 Territórios de Identidade da Bahia, garantindo apoio aos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro.
O lançamento oficial aconteceu em Paulo Afonso, no norte da Bahia. O evento foi marcado por forró, quadrilha junina, apresentações culturais e show do cantor Alcymar Monteiro. O secretário de Cultura, Bruno Monteiro, destacou a reserva de pelo menos 25% dos investimentos para a contratação de forrozeiros, bandas de forró e trios nordestinos, "fortalecendo a identidade cultural que está na raiz dos festejos juninos".
A expectativa é que o São João da Bahia 2026 movimente entre R$ 2,1 bilhões e R$ 2,5 bilhões na economia estadual, impulsionando setores como comércio, serviços, hotelaria, alimentação e transporte. Nos arraiás do estado, portanto, a sanfona e o teclado vão continuar dividindo espaço — mas agora com uma reserva garantida para quem carrega a tradição nas costas.







