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Da floresta para a garrafa: aldeias baianas constroem autonomia com cerveja, cacau e saberes ancestrais

Povo Payayá, na Chapada Diamantina, e Tupinambá, em Ilhéus, mostram como a bioeconomia indígena gera renda coletiva sem abrir mão da natureza.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
07 de junho, 2026 · 06:11 4 min de leitura
Garrafas de cerveja artesanal indígena Kauin Etê, produzida pelo povo Payayá na Chapada Diamantina, Bahia
Garrafas de cerveja artesanal indígena Kauin Etê, produzida pelo povo Payayá na Chapada Diamantina, Bahia

Uma cerveja feita com cambuí colhido na mata. Um cacaueiro que cresce à sombra de árvores centenárias sem derrubar uma única delas. Dois povos, dois biomas, um mesmo princípio: o que a floresta oferece deve sustentar todos — e ser devolvido a ela. É assim que comunidades indígenas baianas praticam, há gerações, aquilo que o mundo acadêmico só recentemente passou a chamar de bioeconomia.

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Na aldeia Payayá, em Cabeceira do Rio, no município de Utinga, na Chapada Diamantina, Otto Payayá, de 72 anos, é uma das principais lideranças de um povo que mapeou mais de 75 espécies de ervas medicinais, 45 espécies de sementes nativas e cerca de 25 tipos de frutas da região, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde. O conhecimento acumulado vira tinturas, pomadas, chás, geleias — e também cerveja.

Atento ao crescente mercado das cervejas artesanais, Otto decidiu resgatar uma antiga tradição dos povos originários da América do Sul: o Kauin, bebida alcoólica feita através da fermentação da mandioca ou do milho, e criou uma nova versão contemporânea da receita com frutos nativos da Chapada. O resultado é a Kauin Etê, que já saiu com sabor de cambuí, licuri, jaca e manga. A bebida é ancestral na tradição Payayá, mas há alguns anos vem sendo produzida comercialmente, de forma artesanal, a maior parte por encomenda.

A cerveja é produzida por famílias da Aldeia Payayá no município de Utinga. A fabricação acontece na cozinha comunitária da aldeia, e a renda gerada não pertence a nenhum dono individual: circula como bem coletivo, pagando contas de água, luz, combustível e insumos para a próxima produção. O excedente é dividido entre quem participou do processo, segundo a reportagem do A Tarde. Na última edição da Fenagro, cerca de 300 garrafas foram vendidas em menos de dois dias.

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O maior obstáculo, segundo Otto, é burocrático: sem o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), a aldeia não pode comercializar em bares, lojas ou redes de distribuição. A fonte original estima que, com estrutura logística adequada, seria possível produzir até 250 litros por dia, o que representaria até 15 mil garrafinhas mensais. O sonho é ampliar a produção e construir uma cozinha de transformação para o aproveitamento de mais de 25 variedades de frutos nativos da região, divulgando a cultura Payayá além das fronteiras da aldeia.

O povo Payayá de Utinga já recebeu investimentos do Governo do Estado, por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR/SDR), que resultaram na implantação de um viveiro de mudas nativas para a recomposição de áreas degradadas e matas ciliares. Parte dos recursos gerados pelos produtos da aldeia é reinvestida diretamente na recuperação das margens do rio: sementes coletadas em raio de até 200 quilômetros são germinadas e replantadas durante o período chuvoso.

A cerca de 350 quilômetros de distância, os Tupinambás de Olivença vivem ao redor do distrito de Olivença, no município de Ilhéus, no litoral sul da Bahia. Ali, o carro-chefe da produção é o cacau cultivado no sistema cabruca — método tradicional em que os pés de cacau crescem protegidos pelas árvores nativas da Mata Atlântica, sem derrubar a floresta. Existem comunidades indígenas que cultivam cacau no sul da Bahia no sistema de cabruca orgânico.

O avanço pecuário vindo de outras regiões, que substituía a cabruca — um tipo de sistema de agrofloresta —, foi contido graças às ações de retomada territorial do povo Tupinambá. Em novembro de 2025, a Terra Indígena Tupinambá de Olivença, com 47.376 hectares nos municípios de Ilhéus, Buerarema e Una, foi declarada como de posse permanente dos Tupinambás. A decisão representa uma virada histórica para a comunidade, que aguardava a regularização fundiária há mais de duas décadas.

Iniciativas recentes como a da ChocoSol, ligada à Rede Ecosol BA, têm orientado a comunidade da Aldeia Tupinambá Abaeté sobre novas práticas de manejo para a produção de cacau de qualidade e incentivado a produção de chocolates, agregando valor às amêndoas. O movimento reforça o que a tradição indígena já sabia: floresta preservada e economia sustentável não se opõem — andam juntas.

Do sertão da Chapada ao litoral sul, os dois povos demonstram que o lucro pode ser coletivo, a produção pode ser sustentável e a floresta pode ser fonte de renda sem virar mercadoria descartável. Uma lição antiga que o Brasil ainda tenta aprender.

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