Uma cerveja feita com cambuí colhido na mata. Um cacaueiro que cresce à sombra de árvores centenárias sem derrubar uma única delas. Dois povos, dois biomas, um mesmo princípio: o que a floresta oferece deve sustentar todos — e ser devolvido a ela. É assim que comunidades indígenas baianas praticam, há gerações, aquilo que o mundo acadêmico só recentemente passou a chamar de bioeconomia.
Na aldeia Payayá, em Cabeceira do Rio, no município de Utinga, na Chapada Diamantina, Otto Payayá, de 72 anos, é uma das principais lideranças de um povo que mapeou mais de 75 espécies de ervas medicinais, 45 espécies de sementes nativas e cerca de 25 tipos de frutas da região, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde. O conhecimento acumulado vira tinturas, pomadas, chás, geleias — e também cerveja.
Atento ao crescente mercado das cervejas artesanais, Otto decidiu resgatar uma antiga tradição dos povos originários da América do Sul: o Kauin, bebida alcoólica feita através da fermentação da mandioca ou do milho, e criou uma nova versão contemporânea da receita com frutos nativos da Chapada. O resultado é a Kauin Etê, que já saiu com sabor de cambuí, licuri, jaca e manga. A bebida é ancestral na tradição Payayá, mas há alguns anos vem sendo produzida comercialmente, de forma artesanal, a maior parte por encomenda.
A cerveja é produzida por famílias da Aldeia Payayá no município de Utinga. A fabricação acontece na cozinha comunitária da aldeia, e a renda gerada não pertence a nenhum dono individual: circula como bem coletivo, pagando contas de água, luz, combustível e insumos para a próxima produção. O excedente é dividido entre quem participou do processo, segundo a reportagem do A Tarde. Na última edição da Fenagro, cerca de 300 garrafas foram vendidas em menos de dois dias.
O maior obstáculo, segundo Otto, é burocrático: sem o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), a aldeia não pode comercializar em bares, lojas ou redes de distribuição. A fonte original estima que, com estrutura logística adequada, seria possível produzir até 250 litros por dia, o que representaria até 15 mil garrafinhas mensais. O sonho é ampliar a produção e construir uma cozinha de transformação para o aproveitamento de mais de 25 variedades de frutos nativos da região, divulgando a cultura Payayá além das fronteiras da aldeia.
O povo Payayá de Utinga já recebeu investimentos do Governo do Estado, por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR/SDR), que resultaram na implantação de um viveiro de mudas nativas para a recomposição de áreas degradadas e matas ciliares. Parte dos recursos gerados pelos produtos da aldeia é reinvestida diretamente na recuperação das margens do rio: sementes coletadas em raio de até 200 quilômetros são germinadas e replantadas durante o período chuvoso.
A cerca de 350 quilômetros de distância, os Tupinambás de Olivença vivem ao redor do distrito de Olivença, no município de Ilhéus, no litoral sul da Bahia. Ali, o carro-chefe da produção é o cacau cultivado no sistema cabruca — método tradicional em que os pés de cacau crescem protegidos pelas árvores nativas da Mata Atlântica, sem derrubar a floresta. Existem comunidades indígenas que cultivam cacau no sul da Bahia no sistema de cabruca orgânico.
O avanço pecuário vindo de outras regiões, que substituía a cabruca — um tipo de sistema de agrofloresta —, foi contido graças às ações de retomada territorial do povo Tupinambá. Em novembro de 2025, a Terra Indígena Tupinambá de Olivença, com 47.376 hectares nos municípios de Ilhéus, Buerarema e Una, foi declarada como de posse permanente dos Tupinambás. A decisão representa uma virada histórica para a comunidade, que aguardava a regularização fundiária há mais de duas décadas.
Iniciativas recentes como a da ChocoSol, ligada à Rede Ecosol BA, têm orientado a comunidade da Aldeia Tupinambá Abaeté sobre novas práticas de manejo para a produção de cacau de qualidade e incentivado a produção de chocolates, agregando valor às amêndoas. O movimento reforça o que a tradição indígena já sabia: floresta preservada e economia sustentável não se opõem — andam juntas.
Do sertão da Chapada ao litoral sul, os dois povos demonstram que o lucro pode ser coletivo, a produção pode ser sustentável e a floresta pode ser fonte de renda sem virar mercadoria descartável. Uma lição antiga que o Brasil ainda tenta aprender.







