Uma cineasta do Nordeste brasileiro saiu de Cannes com um prêmio que poucos conseguem. A diretora alagoana Laís Santos Araújo, natural de Maceió, foi escolhida entre os vencedores da etapa de pitching da La Résidence du Festival de Cannes, concedido pelo CNC (Centre National du Cinéma), o órgão regulador do cinema francês, com o projeto do longa-metragem "Infantaria".
A sessão de pitching reuniu os doze cineastas participantes da Residência durante o festival, em maio de 2025. Segundo o site oficial do CNC, o prêmio é atribuído por um júri de profissionais da indústria — nesta edição, composto pela diretora executiva Joséphine Bourgeois, pelo cineasta Sebastián Lelio e pelo produtor Jean-Christophe Simon.
Para chegar até ali, Laís passou por quatro meses e meio de residência artística em Paris. O programa, que existe há 25 anos, reúne seis cineastas por sessão, de diferentes países, para desenvolverem roteiros de seus primeiros ou segundos longas-metragens. Nesta edição, ela representou o Brasil ao lado de realizadores da Argentina, Irã, Ucrânia, África do Sul e Eslováquia.
O projeto "Infantaria" tem como ponto de partida o curta-metragem homônimo, que estreou mundialmente na Berlinale e recebeu o Prêmio Especial do Júri da mostra Generation 14plus. O filme foi selecionado para mais de 70 festivais ao redor do mundo e se qualificou para o Oscar após vencer o Grand Prix no Festival de Curtas do Rio de Janeiro. A história acompanha uma família em processo de desintegração, a partir da perspectiva de crianças, e aborda gravidez, tabus sociais e o debate sobre o direito ao aborto.
Em entrevista à revista Variety — uma das publicações mais influentes do mercado audiovisual global —, a diretora revelou que nunca planejou transformar o curta em longa: "Não foi algo planejado, nunca fizemos o curta com a intenção de fazer um longa ou como 'prova de conceito'", disse ela. A expansão surgiu porque a cineasta continuava pensando nos personagens e sentia que havia mais história para contar naquela casa.
Segundo informações da Agência Alagoas, "Infantaria" é produzido pela Aguda Cinema, produtora alagoana fundada por Laís em parceria com Pedro Krull, em coprodução com a chilena OroFilms. O longa também já passou por importantes laboratórios internacionais, entre eles La Fabrique Cinéma, BrLab, CineMundi e CineLatino Toulouse.
A trajetória de Laís não se resume a "Infantaria". Ela também co-dirige com Pethrus Tibúrcio o longa "Marina", rodado em Maceió. O filme recebeu o prêmio de desenvolvimento do Hubert Bals Fund, da Holanda, e foi premiado este ano no Work-In-Progress Darkroom do Festival de Rotterdam. Ambientado em 2008, acompanha uma adolescente que organiza seu baile de debutantes enquanto enfrenta as tensões da capital alagoana.
Para a secretária de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas, Mellina Freitas, o reconhecimento em Cannes vai além do prestígio pessoal da cineasta: é sinal de que o audiovisual nordestino amadureceu e encontrou linguagem própria para dialogar com o mundo sem abrir mão de suas raízes locais. O programa La Résidence já revelou nomes hoje reconhecidos internacionalmente, como Lucrecia Martel (Argentina), Carla Simón (Espanha) e o brasileiro Karim Aïnouz.







