A China está se esforçando para se tornar independente na produção de chips semicondutores avançados, um movimento que busca reduzir sua dependência de tecnologias ocidentais. Em um projeto de alto sigilo, comparado até ao “Projeto Manhattan” dos chips, o país constrói um protótipo de máquina capaz de criar esses componentes essenciais para a tecnologia moderna.
Este ambicioso projeto, concentrado em Shenzhen, na China, é liderado pela gigante de tecnologia Huawei. Fontes próximas à Reuters revelaram que a meta é ter chips plenamente funcionais até 2028, embora especialistas considerem 2030 um prazo mais realista para alcançar a autossuficiência total em semicondutores.
Um protótipo gigante e secreto em Shenzhen
Dentro de um laboratório de segurança máxima em Shenzhen, o protótipo chinês está tomando forma. Inspirado nas complexas máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) da holandesa ASML, o equipamento ocupa quase todo um galpão. Ele já consegue gerar luz ultravioleta extrema, mas ainda não produz chips funcionais.
Os chips semicondutores são cruciais para diversas tecnologias, desde smartphones e inteligência artificial até sistemas de armas de alta tecnologia. A capacidade de produzi-los de forma independente é vista pela China como um pilar fundamental para sua segurança nacional e desenvolvimento tecnológico.
Superando desafios com criatividade e muito investimento
Replicar a tecnologia EUV não é uma tarefa simples. Sistemas ópticos de alta precisão, geralmente fornecidos por empresas como a Carl Zeiss AG, são extremamente difíceis de copiar. Para contornar essas limitações e as restrições de exportação impostas pelos EUA e seus aliados desde 2018, a China adota várias estratégias:
- Uso de peças antigas: Componentes de máquinas ASML mais antigas são comprados em mercados secundários.
- Engenharia reversa: Uma equipe de cerca de 100 recém-formados e ex-engenheiros da ASML trabalha na desmontagem e estudo detalhado das tecnologias existentes.
- Atração de talentos: Bônus generosos de até 700.000 dólares (cerca de R$ 3,8 milhões) são oferecidos para novos recrutas, alguns até recebendo identidades falsas para manter o sigilo.
- Redes de fornecedores: Utilização de intermediários para disfarçar os compradores finais.
- Centros de pesquisa integrados: Equipes vivem e trabalham nas instalações, integrando design, produção e testes em um ambiente de alto sigilo.
“Sem dúvida, isso é tecnicamente viável, é apenas uma questão de cronograma. A China tem a vantagem de que a EUV comercial já existe, então eles não estão começando do zero.”
— Jeff Koch, ex-engenheiro da ASML e analista da SemiAnalysis
O papel central da Huawei e o sigilo total
A Huawei está no centro deste esforço, coordenando uma vasta rede de institutos e empresas estatais. O sigilo é uma prioridade máxima. Funcionários de equipes sensíveis chegam a dormir nas instalações e têm acesso restrito a celulares, com a intenção de proteger a confidencialidade do projeto.
“As equipes são mantidas isoladas umas das outras para proteger a confidencialidade do projeto”, explicou uma fonte envolvida à Reuters. Esse modelo de operação, que lembra os rigorosos protocolos de segurança de projetos militares, destaca a importância estratégica que a China atribui à autossuficiência em semicondutores.
Embora o protótipo chinês ainda seja maior e mais simples que as máquinas de última geração da ASML, ele é funcional o suficiente para testes iniciais. A combinação de engenharia reversa e desenvolvimento de tecnologia própria permite que a China avance rapidamente, buscando alcançar um objetivo que, até pouco tempo, parecia distante.







