Um levantamento publicado nesta quarta-feira (1°) expõe, com números, o que pesquisadores descrevem como um padrão estrutural: em 2025, 86,3% das 4.330 mortes registradas pela polícia nos estados de Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo foram de pessoas negras. O dado consta da 7ª edição do relatório Pele Alvo – Entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).
Foram 4.330 mortes por intervenção policial registradas, na soma dos nove estados. No ano anterior haviam sido 4.069 — aumento de 6,4% na letalidade. O crescimento vai na contramão de outros indicadores: segundo dados do Ministério da Justiça, o Brasil teve 31.481 vítimas de homicídio no ano passado, uma redução de 10,4% na comparação com 2024.
Segundo o relatório, em média, pessoas negras têm quatro vezes mais chance de serem mortas pela polícia do que brancos. Em Pernambuco, essa probabilidade é 11 vezes maior; no Rio de Janeiro, seis vezes maior. O perfil das vítimas também é jovem: jovens de até 29 anos, residentes em periferias e favelas, responderam por 64,8% das vítimas.
A Bahia concentra os dados mais graves do levantamento. Foram contabilizadas 1.570 mortes por intervenção policial em 2025, recuo de 7,7% em relação ao ano anterior. O estado, porém, segue como o mais letal entre os pesquisados, tanto em números absolutos quanto na taxa de mortes por intervenção policial a cada 100 mil habitantes. Enquanto a população negra compõe 79,7% dos habitantes da Bahia, ela alcançou 93,9% das vítimas da letalidade policial — com 1.243 mortes — em 2025.
Doze municípios, em um universo de 417, responderam por metade das mortes registradas. Houve casos de morte por intervenção policial em 346 dos 365 dias do ano. Em sete anos, policiais das forças de segurança da Bahia mataram 8.743 pessoas, número superior ao registrado nos demais estados monitorados. A Bahia também concentrou a maior parte dos casos de crianças e adolescentes mortos, com 152 vítimas de 12 a 17 anos.
No Nordeste, Pernambuco chama atenção pelo crescimento. O número de mortes decorrentes de intervenção policial cresceu 30,9% em 2025 em comparação ao ano anterior. Do total, 94,4% das pessoas mortas eram negras. O Maranhão registrou alta recorde, e mais da metade dos registros de letalidade policial (54,9%) não informa a raça ou cor das vítimas, ocultando o impacto racial da violência estatal.
O relatório aponta ainda a expansão de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) para o Norte e o Nordeste como fator que contribui para o agravamento dos índices em algumas regiões. Mesmo com mudanças nas dinâmicas de violência no país, homens, jovens e negros seguem como os principais alvos das ações policiais.
"Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias", afirma Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança. Os dados são coletados junto às secretarias estaduais de segurança via Lei de Acesso à Informação.







