Um delegado e dois investigadores da Polícia Civil da Paraíba foram presos na manhã da última terça-feira (2) suspeitos de integrar uma organização criminosa que desviava drogas apreendidas em operações e as revendia a facções. A ação foi batizada de Operação Perfidus — nome que, em latim, significa "traição" ou "deslealdade" — e foi deflagrada em conjunto pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e pela Polícia Civil.
Entre os presos estão o delegado Braz Morroni de Paiva, titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), e os agentes Everton Rychelyson da Silva Aires e Eduardo Jorge Ferreira do Egito. Com mais de 20 anos de carreira, o delegado já passou por outras delegacias, como a de Repressão a Entorpecentes.
Foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 10 milhões dos suspeitos. Os suspeitos passaram por audiência de custódia e tiveram a prisão mantida, sendo encaminhados ao Presídio Especial Valentina de Figueiredo.
A investigação teve início em fevereiro de 2025, após a denúncia de um traficante de que drogas teriam sido furtadas por agentes da Polícia Civil. Segundo o secretário de Segurança do estado, a apuração durou mais de um ano e analisou mais de 40 mil áudios relacionados ao grupo criminoso.
Everton Rychelyson, conhecido como "Bomba", seria o elo entre policiais e traficantes, responsável por guardar drogas desviadas, negociar carregamentos de cocaína e skunk, organizar a contabilidade clandestina e orientar integrantes do grupo sobre lavagem de dinheiro. Segundo informações divulgadas pelo BNews, baseadas em reportagem do Fantástico (TV Globo), nos últimos cinco anos Bomba teria recebido mais de R$ 4 milhões em suas contas — valor incompatível com o salário de cerca de R$ 8.500 como policial civil.
Eduardo Jorge, por sua vez, participava diretamente das ações de subtração de drogas, monitorava carregamentos de facções, manipulava rastreadores instalados em veículos e armazenava entorpecentes em sua residência. A investigação sustenta que Braz Morroni recebia repasses de dinheiro provenientes das negociações realizadas pelos dois investigadores, cobrava rapidez na recuperação de valores referentes a drogas vendidas a prazo e utilizava sua posição hierárquica para oferecer proteção institucional ao grupo.
As apurações também apontam que informações confidenciais sobre operações policiais eram repassadas antecipadamente a traficantes, permitindo que suspeitos escapassem de prisões e evitassem prejuízos às suas atividades criminosas. Segundo a fonte original, entre os beneficiados estaria José Alexandrino Júnior Lira, investigado por participação em ataques do chamado Novo Cangaço a bancos e carros-fortes no Nordeste.
Há ainda indícios de que drogas armazenadas em delegacias também eram retiradas antes dos procedimentos de incineração. Outro detalhe revelado pela investigação é que os próprios integrantes do esquema estariam desviando parte dos lucros obtidos com a venda das drogas, com agentes responsáveis pelas negociações repassando ao delegado valores inferiores aos efetivamente arrecadados.
Para o secretário de Estado da Segurança e da Defesa Social, Jean Nunes, a operação está entre as mais importantes já realizadas em conjunto pela Polícia Civil e pelo Gaeco. O delegado-geral da Polícia Civil afirmou não haver dúvidas quanto ao envolvimento dos servidores investigados, acrescentando que um dos agentes atuaria na negociação com integrantes da organização criminosa, enquanto o delegado teria a função de oferecer proteção ao esquema.
As defesas negam as acusações. A defesa de Braz Morroni afirmou que a decisão da Justiça "se baseou integralmente nos relatórios policiais" e que estes "se utilizam de conversas indiretas" sem qualquer conversa direta do delegado com os envolvidos, alegando que a Polícia Civil "errou ao não fazer a devida individualização das condutas". O delegado e os agentes foram afastados das funções e podem ser expulsos da Polícia Civil, de acordo com o secretário de Segurança Pública da Paraíba.







