Paulo Afonso · BA
Última hora
PI 637
Polícia

Advogada alagoana alerta: feminicídio não é caso isolado, é mecanismo estrutural do patriarcado

Para a especialista Dra. Mayara Heloise Cavalcanti, o racismo institucional invisibiliza a mulher negra periférica e alimenta um ciclo de violência que as políticas públicas ainda não romperam.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
02 de junho, 2026 · 06:39 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
Portal ChicoSabeTudo

Os números da violência em Alagoas vão além de estatísticas: eles descrevem uma realidade que resiste a debates e permanece estagnada. Alagoas apresenta um dos cenários mais preocupantes do Brasil em termos de violência letal, conforme revelado pelo Atlas da Violência 2026. Segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto, o estado registrou uma taxa de 35,9 homicídios por 100 mil habitantes — índice que sobe para 39,8 quando são contabilizadas as mortes violentas por causa indeterminada.

Publicidade

Para a advogada Dra. Mayara Heloise Cavalcanti, presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB Alagoas e do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir), o relatório confirma o que ela vê na prática todos os dias. Segundo ela, o que os dados revelam é "um mecanismo estrutural de dominação que o patriarcado insiste em manter" — e não uma série de episódios desconectados.

O Atlas da Violência 2026, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), reforça essa leitura. A análise dos homicídios em residências — usada como proxy para feminicídios — mostra estabilidade histórica inaceitável, indicando que a violência de gênero doméstica não acompanhou a queda observada em espaços públicos.

A especialista vai além das médias gerais e aponta uma camada a mais nessa violência: a racial. O cruzamento entre o racismo estrutural e a cultura patriarcal faz com que as mulheres negras sejam as principais afetadas pela violência letal no Brasil. O levantamento confirma que as mulheres negras são as maiores vítimas de violência letal, com taxa 66,7% superior à taxa verificada entre mulheres não negras em 2024, o que reafirma o racismo estruturante existente no país. Em Alagoas, esse recorte é ainda mais grave: em 2024, o estado figurou entre os que registraram as maiores taxas de homicídios de negros por 100 mil habitantes no país.

Publicidade

Segundo a Dra. Mayara, as políticas estaduais falham ao tratar a questão de forma superficial, sem colocar raça e território no centro do debate. O resultado, segundo ela, é um atendimento que prioriza mulheres com maior acesso a recursos, enquanto a mulher negra periférica permanece invisível às métricas de proteção. O racismo institucional, na avaliação da especialista, age como um filtro desde o primeiro contato com o Estado: a palavra da vítima é descredibilizada já no registro da ocorrência, onde a falta de letramento racial dos agentes públicos naturaliza a violência sofrida.

Essa falha sistêmica gera, segundo a advogada, um fluxo excludente. Sem se sentir acolhida e sem encontrar rede de apoio — como aluguel social ou abrigos descentralizados —, a vítima desiste do processo ou retorna ao convívio do agressor. Os processos judiciais e os relatos de profissionais que atuam na área mostram que o feminicídio raramente é um ato isolado: trata-se, quase sempre, do desfecho de um histórico prolongado de violência.

O Atlas também alerta para o agravamento de uma cultura misógina disseminada em ambientes digitais, que tem moldado comportamentos e naturalizado o assédio e a desvalorização da mulher. Para a Dra. Mayara, esse fenômeno — chamado de "machosfera" — deixa de ser um termo acadêmico e se torna ameaça concreta, alimentando a violência doméstica e dificultando que a vítima identifique a agressão antes que ela chegue ao estágio letal.

Em nível nacional, dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) revelam que o Brasil registrou ao menos 1.470 feminicídios em 2025, acima dos 1.464 de 2024. Do total de vítimas, 62,6% são mulheres negras, metade tem entre 30 e 49 anos, e 48,7% são mortas por arma branca.

Segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto, a Dra. Mayara defende que a tecnologia pode contribuir para a mudança: plataformas digitais como a do Atlas permitem cruzar indicadores e dar nomes aos números, transformando a denúncia técnica em chamado coletivo. O objetivo é que a sociedade alagoana deixe de tratar o feminicídio como "problema privado" e passe a encarar o tema como uma urgência pública — porque, enquanto a taxa de violência contra a mulher permanecer constante, cada dado do relatório será um lembrete de que o trabalho de proteção está longe do fim.

Leia também