A saída do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo pegou em cheio o caixa de donos de bares e restaurantes na Bahia. Quem apostou numa campanha longa da Seleção para recuperar os investimentos feitos em estrutura de transmissão agora refaz as contas — e o resultado não é animador.
De acordo com informações divulgadas pelo presidente da Abrasel-BA, Julio Calado, ao jornal A Tarde, cerca de 52% dos bares e restaurantes do estado fizeram preparativos específicos para o Mundial, incluindo aluguel de telões, sistemas de som e ampliação do espaço para receber o público. Em alguns casos, os valores chegaram a R$ 10 mil ou R$ 20 mil por estabelecimento.
Com a eliminação precoce, esses investimentos dificilmente terão retorno. Segundo Calado, o movimento nos bares deve cair pela metade. "Só quem gosta mesmo vai agora a um estabelecimento para assistir a uma partida entre seleções de outros países", disse ele, estimando queda de 50% no fluxo de clientes. Nos dias de jogo do Brasil, alguns bares chegavam a registrar alta de até 200% no faturamento diário.
O quadro é ainda mais delicado quando se considera o momento do setor. O impacto pode ser relevante porque o setor ainda atravessa uma recuperação desigual: apenas 39% dos estabelecimentos encerraram maio com lucro, enquanto 41% operaram no equilíbrio financeiro e 19% fecharam o mês no prejuízo. Para esses últimos, a Copa era uma janela importante para respirar financeiramente.
O consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze, reconhece os danos, mas pondera que o efeito sobre a economia baiana como um todo é mais complexo. Segundo ele, a eliminação não significa apenas perda — representa também uma redistribuição do consumo. Comerciantes de shoppings e centros de vestuário, por exemplo, costumam perder movimento nos dias de jogo do Brasil. Com a rotina normalizada, esse fluxo tende a voltar.
O cenário mais difícil, avalia Dietze, é o de quem vendía produtos exclusivamente temáticos — camisas da Seleção, bandeiras, artigos de decoração para confraternização. O consumo deixa de girar em torno da torcida nacional e passa a depender mais do interesse pelo futebol, dos jogos decisivos, das experiências em bares e restaurantes e das promoções para escoar estoques temáticos.
Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil realizada antes da Copa mostrava que 60% dos consumidores pretendiam comprar produtos ou contratar serviços durante o período do Mundial, com estimativa de que cerca de 99,2 milhões de brasileiros movimentassem o comércio por causa da competição. Com o Brasil fora, parte desse consumo se esvaiu.
Ainda assim, o torneio não acabou. O impacto dos jogos finais também deve ser positivo, ainda que sem a participação da seleção brasileira. O interesse pela competição, embora menor, segue vivo, e muitos consumidores devem continuar frequentando os estabelecimentos para acompanhar as partidas decisivas. A final da Copa, marcada para o domingo, dia 19, deve concentrar atenção e público.
Para quem investe no setor, a orientação é adaptar a comunicação rapidamente. A comunicação centrada em "venha torcer pela Seleção" perde força. O caminho passa a ser vender a experiência da Copa: telões, ambiente, cardápio especial, promoções, encontro entre amigos e transmissão dos principais jogos. Quem souber girar o estoque e fidelizar o público conquistado durante os jogos do Brasil sai da Copa em melhor situação do que entrou.







