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Do mato da Caatinga para o meliponário: sertanejo faz das abelhas nativas motor de renda e ciência na Bahia

Criador de Monte Santo transformou vivência na caatinga em negócio com 300 colônias de abelhas sem ferrão, atraindo cientistas pelo potencial medicinal do mel da moça-branca

Redação ChicoSabeTudoRedação · Municipios
07 de junho, 2026 · 09:13 3 min de leitura
Meliponário com caixas de abelhas nativas sem ferrão na Caatinga baiana
Meliponário com caixas de abelhas nativas sem ferrão na Caatinga baiana

Vanivon dos Santos Dias, 47 anos, cresceu bebendo água de cacimba e dividindo o mato com animais na Fazenda Quixaba, zona rural próxima ao povoado de Pedra Branca, no interior da Bahia. A escola ficava numa casa de farinha e o transporte não chegava até lá. Ele terminou os estudos aos 27 anos. Foi dessa dureza toda que nasceu o olhar atento para o que a caatinga oferece — inclusive as abelhas.

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Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, foi nas andanças pelo sertão que Vanivon desenvolveu curiosidade pelas abelhas nativas. Em 2017, um convite para o 1º Encontro Baiano de Meliponicultura mudou o rumo da vida dele. Ao ver as abelhas em caixas pela primeira vez, tomou uma decisão: ia trabalhar com abelhas sem ferrão. "Me apaixonei e decidi que ia trabalhar com as abelhas sem ferrão", contou.

Desde então, o que começou como um pequeno resgate de colônias no mato virou o Meliponário Palácio das Nativas, referência em manejo e criação de abelhas nativas em Monte Santo, cidade com mais de 47 mil habitantes localizada a cerca de 360 km de Salvador. O projeto reúne hoje, conforme a fonte, 300 colônias de oito espécies: mandaçaia, jataí, cupieira, manduri, mirim-mosquito, mosquito-grosso, lambe-olhos e moça-branca.

A meliponicultura — como se chama a criação técnica de abelhas nativas sem ferrão — é uma prática que une conservação ambiental com benefícios econômicos para comunidades rurais, e vem ganhando destaque por sua contribuição ao aumento da renda de famílias do semiárido. Na Bahia, milhares de famílias criam abelhas sem ferrão, o que levou o estado a regulamentar a atividade por meio da Lei 13.902/18. A lei regulamenta a criação, o comércio, a conservação e o transporte das abelhas nativas sem ferrão no estado, tanto em zonas rurais como urbanas, e identifica 54 espécies.

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O valor financeiro desse mel vai bem além do que chega às prateleiras dos supermercados. O preço, atribuído à raridade, às propriedades medicinais e à apreciação gastronômica, pode chegar a R$ 150 o litro — bem acima dos cerca de R$ 10 cobrados pelo mel da abelha africanizada. O mel das abelhas sem ferrão contém menos açúcares e é extremamente rico em propriedades medicinais.

Entre as espécies criadas por Vanivon, uma chama atenção especial de pesquisadores: a moça-branca (Frieseomelitta). A abelha moça-branca é típica do bioma Caatinga e está distribuída geograficamente nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte. Produz mel claro, de aroma suave e muito valorizado, a partir das flores do umbu e da umburana — espécies que florescem justamente no período mais seco da região. Segundo a fonte original, cientistas baianos investigam propriedades preventivas do mel dessa espécie, sobretudo em relação a doenças como a diabetes.

O nome da espécie tem origem curiosa: as operárias recém-nascidas apresentam coloração esbranquiçada e, à medida que envelhecem, escurecem. O mel também pode variar de tonalidade conforme a florada e os compostos bioativos presentes no alimento. Estudos sobre o gênero Frieseomelitta apontam atividades antimicrobianas e antiproliferativas em seus produtos apícolas, embora ainda haja limitações quanto a ensaios clínicos para confirmar esses efeitos na prática.

Além da produção, Vanivon transforma o meliponário em espaço de experiência e turismo. Algumas abelhas circulam livremente pelo quintal da sua casa e são apresentadas no Museu do Sertão de Monte Santo e em feiras agropecuárias. Visitantes acompanham a vida das colônias e degustam o mel diretamente da fonte. É uma forma de conectar o público a um produto que a Caatinga guarda há séculos.

A criação de abelhas nativas sem ferrão é uma atividade passada de geração a geração no Brasil, podendo ser considerada patrimônio cultural dos povos do campo — e é exatamente esse elo que Vanivon preserva. O desenvolvimento da meliponicultura está diretamente correlacionado com a proteção das florestas do semiárido, uma vez que a abelha sem ferrão, para viver de forma saudável, necessita de grande quantidade de árvores nativas. No Palácio das Nativas, cuidar das abelhas é também cuidar do bioma.

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