Vanivon dos Santos Dias, 47 anos, cresceu bebendo água de cacimba e dividindo o mato com animais na Fazenda Quixaba, zona rural próxima ao povoado de Pedra Branca, no interior da Bahia. A escola ficava numa casa de farinha e o transporte não chegava até lá. Ele terminou os estudos aos 27 anos. Foi dessa dureza toda que nasceu o olhar atento para o que a caatinga oferece — inclusive as abelhas.
Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, foi nas andanças pelo sertão que Vanivon desenvolveu curiosidade pelas abelhas nativas. Em 2017, um convite para o 1º Encontro Baiano de Meliponicultura mudou o rumo da vida dele. Ao ver as abelhas em caixas pela primeira vez, tomou uma decisão: ia trabalhar com abelhas sem ferrão. "Me apaixonei e decidi que ia trabalhar com as abelhas sem ferrão", contou.
Desde então, o que começou como um pequeno resgate de colônias no mato virou o Meliponário Palácio das Nativas, referência em manejo e criação de abelhas nativas em Monte Santo, cidade com mais de 47 mil habitantes localizada a cerca de 360 km de Salvador. O projeto reúne hoje, conforme a fonte, 300 colônias de oito espécies: mandaçaia, jataí, cupieira, manduri, mirim-mosquito, mosquito-grosso, lambe-olhos e moça-branca.
A meliponicultura — como se chama a criação técnica de abelhas nativas sem ferrão — é uma prática que une conservação ambiental com benefícios econômicos para comunidades rurais, e vem ganhando destaque por sua contribuição ao aumento da renda de famílias do semiárido. Na Bahia, milhares de famílias criam abelhas sem ferrão, o que levou o estado a regulamentar a atividade por meio da Lei 13.902/18. A lei regulamenta a criação, o comércio, a conservação e o transporte das abelhas nativas sem ferrão no estado, tanto em zonas rurais como urbanas, e identifica 54 espécies.
O valor financeiro desse mel vai bem além do que chega às prateleiras dos supermercados. O preço, atribuído à raridade, às propriedades medicinais e à apreciação gastronômica, pode chegar a R$ 150 o litro — bem acima dos cerca de R$ 10 cobrados pelo mel da abelha africanizada. O mel das abelhas sem ferrão contém menos açúcares e é extremamente rico em propriedades medicinais.
Entre as espécies criadas por Vanivon, uma chama atenção especial de pesquisadores: a moça-branca (Frieseomelitta). A abelha moça-branca é típica do bioma Caatinga e está distribuída geograficamente nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte. Produz mel claro, de aroma suave e muito valorizado, a partir das flores do umbu e da umburana — espécies que florescem justamente no período mais seco da região. Segundo a fonte original, cientistas baianos investigam propriedades preventivas do mel dessa espécie, sobretudo em relação a doenças como a diabetes.
O nome da espécie tem origem curiosa: as operárias recém-nascidas apresentam coloração esbranquiçada e, à medida que envelhecem, escurecem. O mel também pode variar de tonalidade conforme a florada e os compostos bioativos presentes no alimento. Estudos sobre o gênero Frieseomelitta apontam atividades antimicrobianas e antiproliferativas em seus produtos apícolas, embora ainda haja limitações quanto a ensaios clínicos para confirmar esses efeitos na prática.
Além da produção, Vanivon transforma o meliponário em espaço de experiência e turismo. Algumas abelhas circulam livremente pelo quintal da sua casa e são apresentadas no Museu do Sertão de Monte Santo e em feiras agropecuárias. Visitantes acompanham a vida das colônias e degustam o mel diretamente da fonte. É uma forma de conectar o público a um produto que a Caatinga guarda há séculos.
A criação de abelhas nativas sem ferrão é uma atividade passada de geração a geração no Brasil, podendo ser considerada patrimônio cultural dos povos do campo — e é exatamente esse elo que Vanivon preserva. O desenvolvimento da meliponicultura está diretamente correlacionado com a proteção das florestas do semiárido, uma vez que a abelha sem ferrão, para viver de forma saudável, necessita de grande quantidade de árvores nativas. No Palácio das Nativas, cuidar das abelhas é também cuidar do bioma.







