Enquanto o poder público ignorava, os próprios moradores pegaram na enxada. No último sábado (13), vizinhos do bairro Robalo, no litoral sul de Aracaju, realizaram um mutirão para erguer o muro do Cemitério dos Náufragos — um dos únicos campos santos do Brasil onde estão sepultadas vítimas da Segunda Guerra Mundial.
O local guarda a memória de uma das maiores tragédias da história sergipana. Três navios mercantes próximos à costa de Sergipe foram torpedeados, causando a morte de 551 pessoas. Os ataques foram atribuídos ao submarino alemão U-507, e as embarcações atingidas foram o Baependi, o Araraquara e o Annibal Benévolo. Os torpedeamentos nas costas sergipana e baiana forçaram o então presidente Getúlio Vargas a declarar guerra contra os países do Eixo — grupo formado por Alemanha, Itália e Japão.
O episódio aconteceu em agosto de 1942. O cemitério está localizado na margem da Rodovia José Sarney, de frente para a Praia do Robalo, e tem valor e importância para a História por ter sido o local onde corpos de náufragos, vítimas desses torpedeamentos, foram enterrados. O Cemitério dos Náufragos é um dos dois únicos cemitérios do país onde estão sepultadas vítimas da Segunda Guerra Mundial. A Câmara de Vereadores de Aracaju chegou a aprovar, em dezembro de 2025, projeto de lei declarando o local Patrimônio Cultural Material do município.
O gatilho para o mutirão foi um ato de vandalismo. Há cerca de dois meses, todas as cruzes que existiam nos túmulos do cemitério foram destruídas. Até o momento, não se sabe quem são os autores nem qual foi a motivação da depredação. O ataque ao campo santo acabou acelerando uma obra que já estava na fila de espera da comunidade.
Os moradores fizeram campanhas com os tradicionais leilões, ainda usados naquela região da cidade, e arrecadaram doações junto à população e ao comércio local. A mão de obra foi inteiramente voluntária. Houve reuniões de mobilização e levantamentos das necessidades antes do início das obras.
José Firmo, presidente da associação de moradores, ressaltou que a manutenção do cemitério sempre foi tarefa dos próprios residentes do bairro. Segundo ele, os órgãos públicos ignoram o local. O Cemitério dos Náufragos, assim como outros nove existentes na região da antiga Zona de Expansão, foi interditado em 2007 por decisão judicial. A decisão determinava a interdição dos dez cemitérios considerados clandestinos, mas ordenava que a Prefeitura Municipal de Aracaju construísse um cemitério ambientalmente adequado e garantisse condições de traslado para enterros em outras partes da cidade.
Como a prefeitura cumpriu apenas a interdição, sem atender às demais determinações, as comunidades foram gradualmente reabrindo os cemitérios. Segundo informações divulgadas pelo blog Cláudio Nunes, além do Cemitério dos Náufragos, estão sendo utilizados atualmente o Cemitério de Nelito, no bairro Mosqueiro, e o Cemitério Maria Rosa, no bairro Areia Branca. O Ministério Público Estadual, autor da ação original, teria solicitado ao Judiciário o cumprimento da sentença, o que obrigaria Aracaju a construir um novo cemitério.
Historiadores locais atribuem o desconhecimento sobre esses fatos à pouca relevância dada aos episódios da Segunda Guerra na história do Brasil — especialmente em livros didáticos, onde o envolvimento brasileiro no conflito é apenas mencionado genericamente ou descrito como simbólico. O mutirão do bairro Robalo vai na contramão desse esquecimento: sem esperar pelo Estado, a comunidade decidiu que a história não vai desabar junto com o muro.







