Uma cidade serrana encravada no Alto Sertão de Alagoas guarda, em poucas ruas de calçamento irregular, séculos de história do Nordeste. Água Branca é o segundo destino da recém-criada Rota Turística das Cidades Coloniais Alagoanas, instituída pela Lei Federal 15.444, sancionada pelo presidente Lula no fim de junho de 2026, e que reúne sete municípios com patrimônios reconhecidos pelo Iphan.
O circuito inclui Marechal Deodoro, Penedo, Piranhas, Delmiro Gouveia, União dos Palmares, Porto Calvo e Água Branca. Com a lei, é possível destinar recursos de programas oficiais da União para estruturar e promover o turismo histórico, de natureza e de aventura na região, além de valorizar a preservação da história e a diversidade cultural do Nordeste.
Fundada no século XVII a partir de sesmarias e da influência da família portuguesa Vieira Sandes — que dominou o território com fazendas de gado —, Água Branca concentra no seu centro histórico igrejas, casarões, a Praça da Matriz e a Praça de Nossa Senhora do Rosário. A cidade possui uma das arquiteturas coloniais mais bem preservadas do estado de Alagoas, sendo um marco na interiorização e ocupação do semiárido nordestino.
O ponto de partida de qualquer visita é a Capela de Nossa Senhora do Rosário, a "Igrejinha do Rosário", datada de 1770 e considerada a primeira igreja erguida no município. Logo adiante, destaca-se a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição: construída em 1871 pelo Barão de Água Branca, ela se destaca por sua fachada e rica decoração barroca e neoclássica, sendo considerada um dos templos religiosos mais bonitos do sertão alagoano, com arquitetura imponente bem preservada e pinturas detalhadas no teto.
Por trás da construção da Matriz está uma das figuras centrais da história local. O casarão do Barão de Água Branca, nome de Joaquim Antônio de Siqueira Torres (1808–1888), político influente e grande fazendeiro do Alto Sertão, tornou-se um marco histórico na região. Ele recebeu o título nobiliárquico de D. Pedro II em 1879 por financiar a construção da Igreja Matriz local. É lembrado por consolidar a presença da família Siqueira Torres no sertão nordestino e por seu prestígio junto ao Império.
O casarão carrega ainda um episódio que entrou para a história do cangaço. O assalto à residência da Baronesa Joana Vieira de Siqueira Torres repercutiu nos grandes centros e foi destaque em vários jornais da época, dada a importância dos envolvidos e a grande quantidade de joias e dinheiro subtraídos pelo bando. A invasão foi o primeiro assalto promovido por Lampião como comandante de um bando cangaceiro. O imóvel está destinado a abrigar o acervo histórico e cultural do município.
O conjunto arquitetônico do centro é completado pelos casarões coloniais da Praça Fernandes Lima, com calçamento e fachadas históricas que compõem o perímetro tombado pela Lei Municipal nº 447/71. Segundo informações da fonte original, a proteção abrange o conjunto arquitetônico a nível municipal.
Mas Água Branca não vive só do passado. A natureza do Alto Sertão é outro cartão de visitas. A cachoeira do Vai e Vem, maior atração natural do município, oferece piscinas naturais, águas de coloração escura e quedas d'água com trilha de fácil acesso. Já a cachoeira do Quebra-Cabeça, na divisa com Pariconha, é conhecida pelo "tobogã natural" formado pelas pedras e pelas condições ideais para banho.
Com a nova rota federal, a iniciativa valoriza a diversidade cultural da região, promovendo as cidades para receber um fluxo maior de visitantes e impulsionando a geração de emprego e renda para a população local. Para os moradores da região do São Francisco — a poucos quilômetros de Água Branca —, o destino representa uma das poucas oportunidades de mergulhar na história colonial do sertão alagoano sem percorrer centenas de quilômetros até o litoral.







