Um dos debates mais calorosos do futebol baiano, a realização do clássico Ba-Vi com torcida única, ganhou um novo capítulo com a publicação do Manual de Competições da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). No entanto, apesar de uma interpretação inicial que apontava para o fim dessa medida, advogados desportivos esclarecem que a nova norma dificilmente afetará a realidade do clássico baiano, que há anos tem apenas uma torcida nas arquibancadas por determinação de órgãos de segurança.
O documento, lançado em 27 de janeiro, substitui o antigo Regulamento Geral de Competições e busca alinhar as regras brasileiras às melhores práticas da Fifa e da Conmebol. Ele incorpora sugestões de clubes e federações, visando simplificar normas e diminuir brechas para interpretação. Entre as mudanças, está o endurecimento do texto contra acordos entre clubes para jogos com torcida única, o que gerou a dúvida sobre o futuro do Ba-Vi.
Ba-Vi: História de segurança pública, não de acordo
A história recente do clássico entre Bahia e Vitória é marcada por episódios de violência que levaram à decisão da torcida única. Em 9 de abril de 2017, uma briga generalizada no Dique do Tororó, em Salvador, na Bahia, resultou na morte de um torcedor. Esse trágico evento motivou o Ministério Público da Bahia (MP-BA) a recomendar a restrição de público.
No ano seguinte, em fevereiro de 2018, uma tentativa de voltar com as duas torcidas, no que foi chamado de “Ba-Vi da Paz”, acabou em um cenário desolador, com nove expulsões e o jogo encerrado por W.O. devido a novas confusões em campo. Desde então, a exceção virou regra. Até 2026, o clássico já acumula 31 jogos com torcida única, em mais de 500 confrontos na história. Mesmo com esforços da Federação Bahiana de Futebol (FBF), Polícia Militar e clubes em 2024 e 2025 para rever a situação, a violência impediu o retorno da torcida mista.
O que dizem os especialistas?
Para entender o real impacto do Manual da CBF, o ChicoSabeTudo conversou com os advogados desportivos Dilson Pereira Junior, membro do IBDD (Instituto Brasileiro de Direito Desportivo), e Milton Jordão, especialista com mais de 20 anos de experiência na área.
Segundo Dilson Pereira Junior, a leitura inicial sobre o fim da torcida única no Ba-Vi é equivocada. Ele explica que o novo Manual da CBF proíbe acordos de conveniência entre os clubes, mas não interfere em decisões de segurança pública.
"O jogo com torcida única não é proibido, essa é uma leitura equivocada. A CBF exige que a medida não seja tomada por vontade dos clubes. Tem que haver uma razão técnica ou de segurança que justifique a decisão, como é o caso aqui na Bahia. Os jogos não são fruto de acordo entre Vitória e Bahia, mas sim de determinações do Ministério Público e da Polícia Militar, baseadas em histórico de conflitos e critérios técnicos. A prioridade é a segurança do público, e não a conveniência dos clubes", explicou Dilson.
Ele reforçou que o Manual deve ser interpretado em sua totalidade, e que a proibição não se aplica quando a restrição vem do poder público, como ocorre na Bahia.
Milton Jordão concorda e adiciona que a medida da CBF visa coibir situações como as que estavam acontecendo em Pernambuco, onde federações e autoridades locais determinavam unilateralmente a torcida única, prejudicando os clubes visitantes.
"A CBF, o seu departamento de competições, vai, em cada caso, avaliar se é recomendável fazer um jogo com portas fechadas ou fora da localidade. Casos em que há acordo entre clubes, ela pode até interferir. Mas o que é levado em consideração? O equilíbrio. Então, por que acho que dificilmente essa disposição vai ser aplicada na Bahia? Porque aqui há equilíbrio. Jogos em que o Bahia é o mandante, o clube é 100% mandante, a mesma coisa no caso do Vitória. Me parece que aqui é mais difícil de verificarmos essa intervenção da DCO", detalhou Milton.
A recomendação do MP-BA, amparada por riscos de morte em confrontos entre torcidas organizadas (Bamor e Imbatíveis), faz com que os clubes e a FBF sigam a medida para evitar responsabilidades civis e criminais em caso de tragédia. Essa determinação de segurança pública difere de um acordo entre clubes.
Autonomia da CBF e possíveis sanções
Apesar da ressalva para casos de segurança pública, a CBF mantém autonomia total, via Diretoria de Competições (DCO), para avaliar se as condições de um jogo comprometem o equilíbrio técnico dos torneios nacionais. Em situações extremas, a entidade pode, sim, mudar o local da partida para outra praça esportiva ou, como último recurso, realizar o jogo com portões fechados. Contudo, essas são medidas que dependem de uma análise rigorosa e não são aplicadas de forma automática.
O Manual também aumenta a responsabilidade dos clubes, estabelecendo que tanto o mandante quanto o visitante respondem solidariamente pela conduta de suas torcidas, dentro e fora do estádio. Caso não haja consenso no Plano Especial de Ação entre clubes e Polícia Militar, a partida pode ser adiada ou vetada. As sanções podem incluir multas de até R$ 500 mil, perda de mando de campo com jogos realizados a mais de 100 quilômetros da sede do clube, e a interrupção ou encerramento da partida por cânticos discriminatórios ou desordem generalizada.
Portanto, o futuro dos Ba-Vis continua dependendo de um alinhamento entre a CBF, autoridades de segurança e a justiça baiana. Enquanto a decisão da torcida única estiver baseada em critérios técnicos de segurança pública, o clássico permanecerá dentro das exceções do regulamento, mesmo sob a constante observação da entidade máxima do futebol brasileiro.







