Paulo Afonso · BA
Última hora
Operação prende 14 suspeitos em Salvador nesta manhãSTF retoma julgamento sobre marco temporal nesta tardeVitória empata em casa pela Copa do BrasilVagas de emprego no polo de Camaçari saltam 22%Salvador registra maior volume de chuva do mês
PI 637
Esportes

Novo manual da CBF não muda Ba-Vi com torcida única na Bahia, dizem advogados

Novo Manual de Competições da CBF levantou dúvidas sobre o Ba-Vi com torcida única, mas advogados desportivos explicam que medida não se aplica a casos de segurança pública na Bahia.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Esportes
07 de fevereiro, 2026 · 03:06 5 min de leitura
Fotos: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
Fotos: Maurícia da Matta / Bahia Notícias

Um dos debates mais calorosos do futebol baiano, a realização do clássico Ba-Vi com torcida única, ganhou um novo capítulo com a publicação do Manual de Competições da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). No entanto, apesar de uma interpretação inicial que apontava para o fim dessa medida, advogados desportivos esclarecem que a nova norma dificilmente afetará a realidade do clássico baiano, que há anos tem apenas uma torcida nas arquibancadas por determinação de órgãos de segurança.

Publicidade

O documento, lançado em 27 de janeiro, substitui o antigo Regulamento Geral de Competições e busca alinhar as regras brasileiras às melhores práticas da Fifa e da Conmebol. Ele incorpora sugestões de clubes e federações, visando simplificar normas e diminuir brechas para interpretação. Entre as mudanças, está o endurecimento do texto contra acordos entre clubes para jogos com torcida única, o que gerou a dúvida sobre o futuro do Ba-Vi.

Ba-Vi: História de segurança pública, não de acordo

A história recente do clássico entre Bahia e Vitória é marcada por episódios de violência que levaram à decisão da torcida única. Em 9 de abril de 2017, uma briga generalizada no Dique do Tororó, em Salvador, na Bahia, resultou na morte de um torcedor. Esse trágico evento motivou o Ministério Público da Bahia (MP-BA) a recomendar a restrição de público.

No ano seguinte, em fevereiro de 2018, uma tentativa de voltar com as duas torcidas, no que foi chamado de “Ba-Vi da Paz”, acabou em um cenário desolador, com nove expulsões e o jogo encerrado por W.O. devido a novas confusões em campo. Desde então, a exceção virou regra. Até 2026, o clássico já acumula 31 jogos com torcida única, em mais de 500 confrontos na história. Mesmo com esforços da Federação Bahiana de Futebol (FBF), Polícia Militar e clubes em 2024 e 2025 para rever a situação, a violência impediu o retorno da torcida mista.

O que dizem os especialistas?

Publicidade

Para entender o real impacto do Manual da CBF, o ChicoSabeTudo conversou com os advogados desportivos Dilson Pereira Junior, membro do IBDD (Instituto Brasileiro de Direito Desportivo), e Milton Jordão, especialista com mais de 20 anos de experiência na área.

Segundo Dilson Pereira Junior, a leitura inicial sobre o fim da torcida única no Ba-Vi é equivocada. Ele explica que o novo Manual da CBF proíbe acordos de conveniência entre os clubes, mas não interfere em decisões de segurança pública.

"O jogo com torcida única não é proibido, essa é uma leitura equivocada. A CBF exige que a medida não seja tomada por vontade dos clubes. Tem que haver uma razão técnica ou de segurança que justifique a decisão, como é o caso aqui na Bahia. Os jogos não são fruto de acordo entre Vitória e Bahia, mas sim de determinações do Ministério Público e da Polícia Militar, baseadas em histórico de conflitos e critérios técnicos. A prioridade é a segurança do público, e não a conveniência dos clubes", explicou Dilson.

Ele reforçou que o Manual deve ser interpretado em sua totalidade, e que a proibição não se aplica quando a restrição vem do poder público, como ocorre na Bahia.

Milton Jordão concorda e adiciona que a medida da CBF visa coibir situações como as que estavam acontecendo em Pernambuco, onde federações e autoridades locais determinavam unilateralmente a torcida única, prejudicando os clubes visitantes.

"A CBF, o seu departamento de competições, vai, em cada caso, avaliar se é recomendável fazer um jogo com portas fechadas ou fora da localidade. Casos em que há acordo entre clubes, ela pode até interferir. Mas o que é levado em consideração? O equilíbrio. Então, por que acho que dificilmente essa disposição vai ser aplicada na Bahia? Porque aqui há equilíbrio. Jogos em que o Bahia é o mandante, o clube é 100% mandante, a mesma coisa no caso do Vitória. Me parece que aqui é mais difícil de verificarmos essa intervenção da DCO", detalhou Milton.

A recomendação do MP-BA, amparada por riscos de morte em confrontos entre torcidas organizadas (Bamor e Imbatíveis), faz com que os clubes e a FBF sigam a medida para evitar responsabilidades civis e criminais em caso de tragédia. Essa determinação de segurança pública difere de um acordo entre clubes.

Autonomia da CBF e possíveis sanções

Apesar da ressalva para casos de segurança pública, a CBF mantém autonomia total, via Diretoria de Competições (DCO), para avaliar se as condições de um jogo comprometem o equilíbrio técnico dos torneios nacionais. Em situações extremas, a entidade pode, sim, mudar o local da partida para outra praça esportiva ou, como último recurso, realizar o jogo com portões fechados. Contudo, essas são medidas que dependem de uma análise rigorosa e não são aplicadas de forma automática.

O Manual também aumenta a responsabilidade dos clubes, estabelecendo que tanto o mandante quanto o visitante respondem solidariamente pela conduta de suas torcidas, dentro e fora do estádio. Caso não haja consenso no Plano Especial de Ação entre clubes e Polícia Militar, a partida pode ser adiada ou vetada. As sanções podem incluir multas de até R$ 500 mil, perda de mando de campo com jogos realizados a mais de 100 quilômetros da sede do clube, e a interrupção ou encerramento da partida por cânticos discriminatórios ou desordem generalizada.

Portanto, o futuro dos Ba-Vis continua dependendo de um alinhamento entre a CBF, autoridades de segurança e a justiça baiana. Enquanto a decisão da torcida única estiver baseada em critérios técnicos de segurança pública, o clássico permanecerá dentro das exceções do regulamento, mesmo sob a constante observação da entidade máxima do futebol brasileiro.

Leia também