Poucas histórias no futebol começam tão longe dos holofotes quanto a de Saulo Ruan. Natural de Nossa Senhora da Glória, no sertão de Sergipe, o meio-campista de 23 anos hoje defende o Khovd Broncos, clube da Mongolian Premier League — a principal divisão do futebol da Mongólia. A trajetória passou por peneiras em São Paulo, uma temporada frustrada em Roraima, o futebol europeu e, agora, um continente que pouquíssimos jogadores brasileiros chegaram a conhecer de dentro.
Em entrevista ao Portal Infonet, Saulo contou que os primeiros passos em busca do profissionalismo começaram aos 13 anos, quando ele ainda jogava futsal — modalidade que pratica desde os cinco. A partir daí, pai e filho foram percorrendo o país atrás de oportunidades, com passagens por Portuguesa Santista, Ponte Preta, São Paulo, Cruzeiro, Ceará e Fortaleza, entre outros clubes. Aos 17, disputou o Campeonato Cearense Sub-17 pelo Clube Atlético Cearense.
Aos 19 anos, surgiu a virada. Uma chance na Espanha abriu caminho para Portugal e, depois, para a Eslováquia, onde o atleta jogou por dois clubes diferentes ao longo das temporadas 2023/24 e 2024/25. A carreira internacional de Saulo teve início na temporada 2023/24, quando atuou pelo SKM Liptovský Hrádok, da Eslováquia, antes de passar por Portugal e retornar ao futebol eslovaco para defender o SK Svodín.
O próximo passo foi o mais ousado. No início de 2026, surgiu a oportunidade de atuar no continente asiático, dando sequência ao projeto de consolidar a carreira fora do Brasil. Segundo o próprio jogador, a principal motivação foi a ambição de disputar uma Premier League — e o desejo de conhecer uma cultura completamente nova. "Chegar à Mongólia foi uma experiência completamente diferente. Além da distância de mais de 15 mil quilômetros do Brasil, existe uma cultura, idioma, clima e realidade futebolística muito particulares", destacou ele.
Na comparação entre os futebol que viveu, Saulo traçou um panorama direto: no Brasil, destaca a criatividade que vem das ruas e das quadras; na Europa, encontrou organização tática e valorização do coletivo sem abrir mão da técnica. Já na Mongólia, afirmou que o nível técnico ficou abaixo do que encontrou no Brasil e na Eslováquia, mas enxergou potencial de crescimento. Segundo ele, a liga ainda tem espaço para avançar na profissionalização da estrutura e do desenvolvimento local.
Outra diferença que chamou sua atenção foi cultural: enquanto no Brasil e em boa parte da Europa o futebol ocupa o topo do interesse popular, na Mongólia o esporte divide espaço e atenção com outras modalidades. Para Saulo, esse cenário, em vez de desanimar, reforça a perspectiva de crescimento da liga nos próximos anos.
A combinação entre esporte e educação reforça o planejamento de longo prazo do jogador, que busca evoluir tanto dentro quanto fora dos gramados. Além da carreira atlética, Saulo concilia a rotina de jogador profissional com um curso de Engenharia de Software e atividades empreendedoras — uma aposta no futuro que vai além das quatro linhas.
A história do sergipano é rara, mas não única no sentido do que representa: um nordestino que saiu de uma cidade do sertão, percorreu clubes de norte a sul do Brasil sem encontrar uma porta, e foi parar numa liga asiática de país que a maioria dos brasileiros não consegue localizar no mapa. Para Saulo Ruan, cada escala nessa rota foi um degrau — e o próximo ainda não tem endereço definido.







