A nadadora baiana Ana Marcela Cunha escreveu mais um capítulo de destaque na história do esporte brasileiro nesta quarta-feira (22). Campeã sul-americana, mundial e detentora do ouro olímpico em Tóquio 2020, ela atravessou o Canal da Mancha em 8h27m12s e estabeleceu o novo recorde sul-americano do percurso — válido para homens e mulheres. A largada ocorreu por volta das 5h no horário local, equivalente à 1h da madrugada no horário de Brasília.
Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, a atleta percorreu 37 km entre Dover, na Inglaterra, e a costa da França. O Canal tem aproximadamente 34 km em linha reta, mas correntes marítimas e alterações de maré desviam os nadadores da rota mais curta, tornando o percurso real sempre mais longo e imprevisível.
O feito também pode render a Ana Marcela um lugar no Guinness World Records como a campeã olímpica de maratona aquática mais rápida a completar a travessia. Um representante da organização acompanhou a tentativa no local, mas o registro ainda depende da análise da documentação e da homologação oficial. A melhor marca feminina absoluta da travessia pertence à tcheca Yvetta Hlaváčová, com 7h25 em 2006.
A janela para a tentativa foi aberta no dia 20 de julho, com prazo até 29 de julho. Durante esse período, a equipe monitorou condições climáticas e marítimas antes de definir a largada. A atleta estava em Folkestone, na Inglaterra, onde concluía a preparação final. Na véspera da travessia, a previsão indicava tempo firme, visibilidade superior a cinco quilômetros e temperatura ambiente próxima dos 23°C. A temperatura da água foi estimada em cerca de 19°C — acima dos 15°C a 17°C normalmente registrados na região nesta época do ano.
Mesmo sob condições consideradas favoráveis, as regras da travessia impõem restrições severas. Segundo a fonte, Ana Marcela entrou na água com maiô convencional, sem roupa térmica, e não pôde tocar na embarcação de apoio nem receber qualquer tipo de sustentação física durante as 8h27 de nado. O barco oficial acompanhou toda a tentativa, transportando a equipe de segurança, suporte e homologação.
A equipe contou com o treinador Kafu e com o guia Igor de Souza, tricampeão da Volta de Manhattan e um dos poucos brasileiros a completar a travessia três vezes. Também estavam presentes um árbitro, o representante do Guinness e profissionais de registro audiovisual. É exatamente essa combinação de frio, correntes, ondas e tráfego intenso de embarcações que faz o Canal da Mancha ser chamado de "Everest da natação".
Uma das maiores maratonistas aquáticas da história, Ana Marcela acumula 17 medalhas em Mundiais de Esportes Aquáticos — incluindo sete ouros — e foi eleita pela Fina a melhor nadadora de águas abertas do mundo por seis vezes. O sonho de atravessar o Canal da Mancha, no entanto, antecede todas essas conquistas. Antes da tentativa, ela declarou que o desafio era "um sonho de adolescente", que carregava desde os 14 anos, e classificou a travessia como o maior desafio da sua vida — acima até do ouro olímpico conquistado no Japão.
Ana Marcela chegou à seleção brasileira em 2006, com apenas 14 anos — exatamente a idade em que, segundo ela própria, o sonho do Canal da Mancha nasceu. Duas décadas depois, em plena forma aos 34 anos, a baiana de Salvador transformou esse desejo em marca histórica para o esporte sul-americano.







