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Especialista rejeita "abandono escolar" e expõe mecanismo de expulsão que afasta jovens negros das escolas em Alagoas

Para o sociólogo Fabson Calixto, o Estado empurra corpos negros para as margens — e os dados confirmam: 3 em cada 4 jovens alagoanos fora da escola e do mercado de trabalho são negros.

Redação ChicoSabeTudo
01 de julho, 2026 · 07:04 3 min de leitura
Jovens negros em ambiente escolar precário no Nordeste brasileiro
Jovens negros em ambiente escolar precário no Nordeste brasileiro

O termo "abandono escolar" é confortável para o debate público porque coloca no jovem a responsabilidade por sair da escola. O sociólogo e doutor em Educação Fabson Calixto discorda com precisão cirúrgica: o que existe, segundo ele, é um mecanismo institucional que expulsa esses jovens — e a cor da pele diz muito sobre quem é expulso.

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Os números de Alagoas dão peso à tese. Segundo informações divulgadas pelo portal CadaMinuto, quase 170 mil jovens alagoanos vivem hoje sem frequentar sala de aula, sem formação concluída e sem qualquer fonte de renda formal. Três em cada quatro desses jovens são negros. O dado não é coincidência — é, na avaliação do especialista, o retrato de um processo sistemático.

"Não há abandono escolar nesse sentido. Há, sim, um mecanismo institucional violento que retira esse jovem da escola", afirma Calixto. Para ele, o racismo não se limita a agressões explícitas. Ele se atualiza com o tempo, opera no cotidiano pedagógico e comunica de forma silenciosa qual é o "lugar social" reservado para crianças e jovens negros — que não é o espaço de prestígio ou de boa remuneração.

O cenário alagoano não está isolado. Dados nacionais corroboram a análise: levantamento da Agência Tatu com base na PNADC/IBGE revelou que, dos 3,7 milhões de jovens do Nordeste que não estudam nem trabalham, mais de 2,8 milhões são pretos ou pardos. A PNAD Contínua de 2023 aponta ainda que, entre os jovens de 14 a 29 anos sem ensino médio concluído, 71,6% eram negros — dado levado ao Judiciário pelo Ministério Público de Alagoas em ação civil pública contra o Estado.

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O MP e a Defensoria Pública alagoana chegaram a pedir judicialmente que o governo implemente, em 30 dias, um reforço no valor do Cartão Escola 10 para estudantes negros e quilombolas, além de um cronograma concreto para a política afirmativa. O próprio Estado havia reconhecido a necessidade das medidas — mas permaneceu inerte, segundo os autores da ação.

Calixto também questiona as políticas que o governo local apresenta como vitrine de eficiência. Escolas de tempo integral e cursos técnicos vinculados ao Sistema S são vendidos como soluções — mas, na avaliação do especialista, ignoram completamente a dimensão racial do problema. "Essas políticas não são políticas afirmativas. São políticas socioeconômicas que não dão conta das dimensões do racismo", afirma. O resultado, segundo ele, é que os cursos oferecidos à periferia formam mão de obra para funções de baixo prestígio e menor remuneração, sem ampliar os horizontes dessa população.

O argumento da meritocracia também é rejeitado por Calixto. Para o sociólogo, transferir ao indivíduo a responsabilidade pelo fracasso sistêmico é uma narrativa que esconde o que a pesquisa já aponta: a desigualdade racial se aprofunda mesmo com escolaridade. Dados da Fundação Itaú com o Pacto de Promoção da Equidade Racial mostram que jovens negros com ensino superior completo enfrentam exclusão ocupacional mais acentuada do que aqueles sem formação — um paradoxo que derruba a ideia de ascensão pelo esforço individual.

Na Bahia, estado vizinho com perfil demográfico semelhante — 80,7% da população autodeclarada negra —, o cenário também é de desigualdade estrutural. Negros representam 81,9% da força de trabalho baiana, mas são maioria entre desempregados, desalentados e trabalhadores informais, com taxa de desocupação de 11,1% contra 9,5% dos brancos, segundo levantamento da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) com base na PNADC/IBGE 2024.

A análise de Calixto integra uma série especial do portal CadaMinuto sobre os desafios estruturais de Alagoas às vésperas das eleições de 2026. A discussão sobre raça e educação, no entanto, vai além do calendário eleitoral: é uma questão de direitos que permanece sem resposta concreta enquanto o Estado prefere classificar como "escolha" o que os dados insistem em chamar de exclusão.

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