Um levantamento elaborado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) com base nas declarações do Imposto de Renda de Pessoas Físicas de 2024 colocou em números o tamanho da desigualdade salarial entre profissões em Alagoas. No topo absoluto do ranking estadual estão membros do Poder Judiciário e dos Tribunais de Contas, com rendimento médio mensal de R$ 42.422,60. Na última posição aparecem cantores e compositores, com renda média declarada de R$ 652,05 por mês.
A diferença entre os dois extremos ultrapassa 60 vezes. Enquanto um magistrado alagoano recebe, em média, mais de R$ 42 mil mensais, a renda de um cantor ou compositor no estado representa menos de 2% desse valor, segundo o estudo divulgado pelo jornal O Globo.
O levantamento considera rendimentos de salários, bônus, auxílios e outros benefícios declarados no Imposto de Renda 2025, ano-calendário de 2024. Os dados cobrem profissionais de todos os estados brasileiros, permitindo um raio-x comparativo inédito das remunerações por categoria.
Logo atrás dos magistrados em Alagoas aparecem os membros do Ministério Público — procuradores e promotores —, com média mensal de R$ 40.389,16, de acordo com informações divulgadas pelo portal Cada Minuto. A lista das profissões mais bem pagas no estado é dominada pelo setor público: advogados públicos, auditores fiscais, delegados de polícia, médicos e servidores do Judiciário figuram entre os maiores rendimentos.
Nos demais estados do país, o padrão se repete: membros do Judiciário, do Ministério Público e dos Tribunais de Contas ocupam a liderança entre as profissões com maior rendimento médio em 26 dos 27 estados e no Distrito Federal. A única exceção ocorre em Sergipe, onde titulares de cartório registraram renda média mensal de cerca de R$ 53,5 mil.
No contexto nacional, o debate sobre os salários do Judiciário está longe de ser novo. Segundo estudos recentes, 79,9% dos juízes brasileiros recebem acima do teto constitucional, que gira em torno de R$ 46.366,19 por mês. O custo para o Brasil com esses chamados "supersalários" de magistrados subiu 49,3% em 2024, chegando a R$ 10,5 bilhões — valor correspondente às despesas pagas acima do teto constitucional.
Na outra extremidade do ranking alagoano, profissões ligadas à cultura, ao extrativismo e aos serviços pessoais concentram as menores rendas médias declaradas. Após os cantores e compositores (R$ 652,05), aparecem pescadores, caçadores e extrativistas florestais, com média de R$ 1.208,70. A lista dos menores rendimentos inclui ainda decoradores, vitrinistas, trabalhadores de salões de beleza, corretores de imóveis, escritores e produtores de espetáculos, conforme a fonte original.
Os pesquisadores da FGV ressaltam uma limitação importante da metodologia: o levantamento considera apenas rendimentos recebidos de pessoas jurídicas, como salários, gratificações e participação nos lucros. Ganhos com aluguéis, investimentos financeiros ou rendimentos obtidos por meio de empresas próprias ficam de fora do cálculo. Isso significa que o retrato pode subestimar a renda real de categorias que costumam trabalhar como pessoa jurídica — e também não reflete o total recebido por quem não declara Imposto de Renda por estar abaixo do limite de obrigatoriedade.
Mesmo com essas ressalvas, os números do estudo reforçam um retrato estrutural já conhecido: a concentração de renda nos estratos do 1% e do 0,1% mais ricos cresceu significativamente no período pós-pandemia, atingindo o maior nível da série histórica. Em Alagoas, um dos estados com menor PIB per capita do Brasil, esse contraste ganha contornos ainda mais evidentes quando se compara quem depende do setor público e quem vive da economia criativa.







