O carnaval de Salvador, na Bahia, ganhou um brilho especial com a tradicional Pipoca de Saulo, que arrastou milhares de foliões pelo Circuito Osmar, no Campo Grande. Mas, além da música e da alegria contagiante, o cantor Saulo Fernandes aproveitou seus figurinos e falas para mandar um recado potente e urgente sobre o papel das mulheres negras na sociedade.
Em uma conversa exclusiva antes de subir no trio, Saulo revelou que suas escolhas de figurino não eram apenas estética, mas um manifesto. Suas roupas foram um tributo a grandes mulheres pretas da história, e ele enfatizou a importância de, nas suas palavras, “devolver o Brasil e o mundo para elas”.
Um recado direto e necessário
“É porque eu quero falar das mulheres pretas. Eu acho que o mundo e o Brasil precisam ser devolvidos a uma mulher preta. Tudo nasceu de uma mulher preta, tudo nasceu da África e a gente precisa devolver. No dia que uma mulher preta tomar posse de tudo, aí o mundo vai melhorar. E aí, sobretudo as baianas, né? Eu falei de Mãe Stella também no primeiro dia. Tem mais outras baianas maravilhosas”, explicou Saulo, com a voz carregada de convicção.
Para o artista, a história e o futuro do Brasil e do mundo estão intrinsecamente ligados ao reconhecimento e à valorização das mulheres negras. Sua fala ressalta a ancestralidade e a força feminina preta como pilares para um futuro melhor.
Homenagens em cada detalhe
Ao longo dos três dias de sua Pipoca, Saulo utilizou a mortalha branca, um símbolo de paz e tradição, para exaltar personalidades femininas negras que marcaram suas áreas:
- Primeiro dia: A homenagem foi para Mãe Stella de Oxóssi. Nas costas do figurino, o nome da ialorixá, escritora e primeira mulher eleita por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia. Na frente, uma foto da icônica líder religiosa, que morreu em dezembro de 2018.
- Segundo dia: Saulo voltou a vestir a mortalha branca, desta vez com o nome de Wanda Chase. A jornalista foi uma referência como ativista do movimento negro e especialista em carnaval e música baiana, que nos deixou em janeiro de 2025.
- Terceiro e último dia: O nome escolhido foi o de Negra Jhô. Reconhecida trancista, empresária da área de estética e grande multiplicadora da cultura afro.
Essas escolhas demonstram a amplitude do impacto das mulheres negras em diversas esferas, desde a religião e literatura até o ativismo e o empreendedorismo cultural.
A alegria das pipocas e o povo na rua
Além da forte mensagem social, Saulo também falou sobre o seu lado folião. Questionado sobre quais pipocas ele gosta de curtir no carnaval, o cantor demonstrou um amor genuíno pela manifestação popular.
“Eu gosto de todas. Não estou sendo demagogo não, mas eu gosto de todas porque, como eu falei, o que eu acho mais bonito é o povo na rua tomando a rua: ‘me dê a rua que a rua é minha’, sabe? Há pouco tempo atrás isso não existia. Eu cito a pipoca do Kannário, BaianaSystem, que eu acho incrível. A pipoca de Ivete (Sangalo) também, que tem uma pipoca grande. A pipoca de Bell continua incrível, né? Também tem Psirico, ah, tem muitas”, declarou.
Para Saulo, a essência do carnaval está na ocupação das ruas pelo povo, na liberdade de expressão e na força coletiva. Suas homenagens e sua valorização da cultura popular mostram que o carnaval pode ser, sim, um espaço de festa, mas também de reflexão e de mensagens poderosas sobre inclusão e respeito.







