Enquanto os últimos acordes dos trios elétricos ecoam por Salvador, marcando o encerramento do maior ciclo festivo do Brasil, o país contabiliza os números superlativos da folia. O Carnaval de 2026 reafirma sua posição como motor econômico e vitrine cultural, arrastando milhões de pessoas e movimentando bilhões de reais em turismo e serviços. No entanto, em paralelo à celebração profana nas avenidas, um debate de natureza teológica e mística ganhou tração nas redes sociais, confrontando a euforia da festa com uma visão sombria sobre o mundo espiritual.
O protagonista dessa discussão é Wilian Brito, conhecido popularmente como "Bruxo Malagueta". Líder religioso que se identifica como Bàbáláwo Ifásola (iniciado em Oyá, na Nigéria) e fundador da Igreja da Pombagira, na região metropolitana de Porto Alegre, Brito divulgou um vídeo que viralizou ao oferecer uma interpretação esotérica e contundente sobre o que, segundo ele, realmente ocorre no "plano invisível" durante a folia.
A premissa do discurso de Malagueta baseia-se em um paradoxo que capturou a atenção da internet: a figura de um praticante de magia e cultos de matriz africana que se recusa terminantemente a participar do Carnaval, enquanto critica a presença despreocupada de cristãos, especificamente evangélicos, no evento.
"Crente adora o Carnaval, mas eu, que sou bruxo e trabalho com daemons [entidades de alta hierarquia], não tenho coragem de ir", declarou Brito. A justificativa foge do moralismo cristão tradicional e entra no campo da metafísica. Para o religioso, a festa não é apenas entretenimento, mas um mecanismo gigantesco de invocação. Segundo sua visão, "cada batida do atabaque, no samba, no pagode ou no funk, é uma célula rítmica que invoca as entidades".
A teoria do "Portal" e a magia sexual
O ponto central da argumentação do "Rei da Amarração Amorosa", como também se apresenta, é a ideia de que o Carnaval funciona como um catalisador energético que foge ao controle humano. Brito descreve os dias de folia como a abertura de um "portal incomum", permitindo a circulação de espíritos que, durante o restante do ano, estariam contidos ou sem permissão para atuar no plano físico.
"Esses espíritos nem nós [bruxos] controlamos", alertou, sugerindo um ambiente de anarquia espiritual perigosa até mesmo para iniciados experientes.
Além da questão rítmica, Malagueta classifica a interação física das multidões como um ato de "magia sexual". Em sua análise, a mistura de suor, a proximidade dos corpos, o consumo de álcool e entorpecentes configuram, ainda que inconscientemente, "o maior ritual de magia sexual do Brasil". Para ele, a energia gerada nessa catarse coletiva alimenta as entidades que ele afirma estarem soltas nas avenidas.
O alerta aos evangélicos
O vídeo ganhou capilaridade especialmente por mirar no público evangélico que frequenta o Carnaval. O discurso de Brito atua como uma advertência teológica reversa: enquanto pastores costumam condenar a festa por questões de "pecado", o bruxo a condena por questões de "pacto".
"Você não está curtindo, você está adorando", sentenciou Malagueta, dirigindo-se aos cristãos. Ele argumenta que a participação na festa sela acordos espirituais não intencionais através das ações físicas (dança, bebida, beijo).
A conclusão do vídeo traz um tom de intimidação sobrenatural, sugerindo que as consequências da folia acompanhariam os participantes para dentro de seus lares e templos religiosos. "Quando você voltar para a igreja no domingo, as entidades que você invocou no Carnaval vão voltar com você", afirmou, descrevendo uma espécie de contaminação espiritual duradoura.
[embed:ce30ed9a-3648-496f-9145-d2d122ac3caa]







