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De empregada doméstica a guardiã da culinária alagoana: a trajetória de Dona Lourdes, hoje Patrimônio Cultural de Alagoas

Maria de Lourdes Pereira transformou a galinha ao molho pardo em símbolo de Marechal Deodoro e foi reconhecida oficialmente pelo estado em sessão solene na Assembleia Legislativa de Alagoas.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
20 de maio, 2026 · 15:03 3 min de leitura
Dona Lourdes, cozinheira e Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas, com sua galinha ao molho pardo em Marechal Deodoro
Dona Lourdes, cozinheira e Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas, com sua galinha ao molho pardo em Marechal Deodoro
PI 637

Tem gente que tempera a vida com fé, força e coentro. Maria de Lourdes Pereira, conhecida por todos como Dona Lourdes, é exatamente esse tipo de pessoa. À frente de seu restaurante em Marechal Deodoro, no litoral sul de Alagoas, ela preserva há mais de quatro décadas uma das receitas mais amadas da culinária regional: a galinha ao molho pardo, também chamada de galinha à cabidela.

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A trajetória de Dona Lourdes começa longe das panelas. Antes de abrir o próprio negócio, ela foi empregada doméstica em São Paulo. Na capital paulista, chegou a preparar comida para nomes como Jô Soares, Vanusa e Carlos Alberto de Nóbrega — "vida de artista é uma loucura, não tem horário certo para comer", ela lembrava. Foi nesse período que absorveu novos ingredientes, como açafrão e salsinha, e aprendeu técnicas que mais tarde incorporaria ao cardápio do seu restaurante.

De volta ao Nordeste, ela se estabeleceu em Marechal Deodoro e abriu o restaurante que leva seu nome. Há 42 anos, o estabelecimento é uma das maiores expressões gastronômicas da cidade, tendo sido destaque no programa Globo Rural, citado em livros e periódicos especializados. Segundo informações divulgadas pela fonte original, cerca de 190 galinhas são preparadas todo mês para os fãs da casa.

O prato que colocou Dona Lourdes no mapa tem raízes antigas. A galinha ao molho pardo tem origem na culinária portuguesa e foi trazida para o Brasil pelos colonizadores no século 16. No Nordeste, é conhecida como galinha de cabidela, feita a partir de uma ave carneada na hora, com o sangue misturado ao vinagre para não coagular — base do molho escuro que dá nome ao prato. Na versão de Dona Lourdes, o resultado é um molho encorpado, de textura aveludada e sem acidez, temperado com ervas como hortelã, manjericão e folha de louro.

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A receita veio de família. Segundo informações divulgadas pela fonte original, foi ainda na infância, observando as avós na cozinha, que ela aprendeu os fundamentos da cabidela. A técnica é simples na explicação, mas exige domínio: bater o sangue com vinagre, alho e coentro, peneirar e incorporar ao cozido da galinha. É nessa etapa que mora a diferença entre um molho comum e o que lota o restaurante de Lourdes todo fim de semana.

A "Galinha à Cabidela" de Marechal Deodoro tornou-se Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Alagoas por meio da Lei nº 9.221, de 26 de abril de 2024, de autoria do deputado Inácio Loiola (MDB). O título foi entregue em sessão solene na Assembleia Legislativa, consolidando o que a fama já sinalizava há anos.

A jornalista e especialista em gastronomia alagoana Nide Lins ressaltou que a homenagem é prova de que a culinária alagoana tem identidade cultural. "Ela tem uma história linda. Foi empregada doméstica em São Paulo e, quando voltou, abriu seu restaurante com um fogareiro de lata. Hoje, depois de décadas, é um patrimônio do nosso Estado com a melhor galinha à cabidela do mundo."

Para quem quiser conhecer, o Restaurante da Lourdes funciona de terça a sexta-feira, das 11h às 15h, e aos sábados e domingos, das 11h às 16h. Fica na Rodovia Edvaldo Lemos, 1509, no Loteamento Búzios do Francês, em Marechal Deodoro. O prato individual começa em R$ 26,00 e a opção para duas pessoas sai por R$ 64,90. Aceita cartão. Contato: (82) 3263-1826.

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