Uma fazenda no interior de Alagoas está desafiando uma das certezas mais antigas do mercado cervejeiro: a de que lúpulo não nasce em clima quente. A Fazenda Sete Léguas, em União dos Palmares, a 73 quilômetros de Maceió, é a primeira área de cultivo de lúpulo em escala comercial do Nordeste. O responsável pelo projeto é o agricultor Aluysio Righetty, à frente da empresa Hoop Is All.
Em março de 2022, Righetty plantou as primeiras mudas depois de conhecer experiências bem-sucedidas de cultivo com iluminação artificial no Sul do país. A plantação utiliza um sistema de iluminação artificial — o chamado fotoperíodo suplementar — para simular os dias longos do verão europeu ou norte-americano, condição necessária para que a planta produza flores. Sem esse recurso tecnológico, o lúpulo simplesmente não floresceria no calor alagoano.
O projeto ganhou visibilidade com o evento "Colheita do Lúpulo", realizado na propriedade. Em meio à vegetação nativa da Zona da Mata alagoana, a plantação encantou empresários do setor cervejeiro, instituições de ensino e pesquisa e apreciadores da bebida, com o objetivo de proporcionar uma imersão no trabalho desenvolvido na propriedade. O evento deste ano teve o dobro de participantes em relação ao ano passado, consolidando a Fazenda Sete Léguas como um importante polo de conhecimento, pesquisa e inovação para a cadeia cervejeira nordestina.
O viveiro conta atualmente com cerca de 500 plantas de diferentes variedades, entre elas Zeus, Vista, Triumph, Nugget e Saaz. Após seis safras, os resultados permitiram selecionar quatro variedades com melhor desempenho agronômico e maior aceitação pelo mercado cervejeiro. A nova área de cultivo já conta com mais de mil mudas. A meta é chegar a duas mil plantas em aproximadamente um ano, segundo informações divulgadas pela fonte.
A qualidade da produção tem sido reconhecida fora de Alagoas. Em 2023, o lúpulo alagoano conquistou duas medalhas de prata na Copa Brasileira de Lúpulos; e em 2025 voltou a brilhar, com nova medalha de prata na categoria Nugget — sendo a única representante do Nordeste premiada na edição de 2025 do torneio. O impacto chega às prateleiras: a cervejaria alagoana Caatinga Rocks, que utiliza lúpulo da Fazenda Sete Léguas, teve um de seus rótulos eleito o melhor do Brasil no concurso Brasil Beer Cup de 2024.
A área de secagem da fazenda passou recentemente por um processo de modernização que inclui a implementação da peletização — técnica que transforma as flores em pellets compactos, facilitando o transporte e a conservação do produto. Para Chiara Barros, mestre cervejeira e engenheira química do Instituto Ceres que acompanha o projeto desde o início, a mudança é estratégica: "ter uma matéria-prima local, fresca e com o nosso terroir faz toda a diferença para o DNA da cerveja nordestina, garantindo sustentabilidade e independência frente às oscilações de preço e crises globais."
A propriedade também deu origem à Righetty IPA, primeira cerveja elaborada 100% com o lúpulo da fazenda, desenvolvida em parceria com a Associação Brasileira de Sommeliers (ABS/AL) e a Associação de Cervejeiros Caseiros Artesanais (Acerva). O encerramento do evento contou com uma apresentação do CETENE sobre pesquisas relacionadas ao cultivo do lúpulo e um momento de degustação de dois tipos de cerveja produzidos pela Acerva Alagoana.
O pioneirismo, porém, tem seus custos. Segundo Righetty, a falta de equipamentos e insumos específicos para o lúpulo é um dos principais obstáculos. O agricultor afirma que os desafios com doenças, pragas e comercialização exigem adaptação constante — e que o Sebrae Alagoas tem sido um parceiro fundamental nesse caminho. O Brasil ainda depende fortemente da importação de lúpulo: em 2020, o país importou 3,2 mil toneladas, totalizando US$ 57 milhões — o que reforça o peso estratégico de iniciativas como a da Fazenda Sete Léguas para a independência do setor cervejeiro nacional.







