Doze horas ao volante, três cirurgias em um ano e a família que mal vê o pai acordado. Essa é a rotina de Bruno Chagas, 44 anos, motorista de aplicativo há dez anos em Salvador. O que antes era uma jornada de oito horas virou um turno que se estende — e mesmo assim, segundo ele, nem sempre é suficiente para fechar as contas do mês.
O caso de Bruno não é isolado. Um levantamento da GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, realizado com aproximadamente 1.500 motoristas de aplicativo de todo o país, mostra que apenas 7,2% conseguem atingir suas metas diárias dentro da jornada de trabalho que consideram ideal. Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, 44,8% dos entrevistados afirmam precisar trabalhar além do tempo desejado sempre que buscam alcançar seus objetivos financeiros, e 24,8% enfrentam essa situação na maior parte das semanas.
De acordo com o levantamento, em 2025 os motoristas de aplicativo trabalham, em média, 52 horas por semana no país. Em cidades como São Paulo, essa carga pode chegar a 60 horas. Em Salvador, o padrão se repete: há motoristas que trabalham até 12 horas por dia para alavancar o rendimento.
Bruno conta que sua meta diária é faturar R$ 300 — mas só o combustível consome cerca de R$ 100 desse total. O restante precisa cobrir parcela do veículo, seguro, manutenção, alimentação e despesas da casa. Para ele, o custo mais pesado e invisível da profissão é a manutenção do veículo, não a gasolina. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, ele estima que as plataformas retêm 45% do valor de cada corrida, chegando a 50% em alguns casos.
As corridas por aplicativo ficaram, em média, 56,08% mais caras para os passageiros em 2025, de acordo com dados do IBGE. Mas quem trabalha dirigindo não comemora: o repasse desse aumento ao motorista está longe de ser proporcional, segundo relatos e estudos que escancaram um descompasso estrutural entre tarifa cobrada e remuneração final.
O impacto vai além do bolso. Bruno relata, segundo a reportagem original do A Tarde, que passou por três cirurgias de cálculo renal em 2025, resultado de horas sem conseguir parar para urinar durante o expediente. Problemas de coluna, ansiedade e convivência familiar praticamente nula completam o quadro. "É bom dia e boa noite", resume. Entre os motoristas entrevistados pela GigU, 92% estão endividados e 68% têm a renda para despesas básicas comprometida por essas dívidas.
A presidente do Sindicato de Condutores Autônomos de Aplicativos da Bahia (Sincaap Bahia), Kátia Silene, atribui o agravamento do cenário ao fato de que a tarifa-base nas principais plataformas permanece abaixo de R$ 6, enquanto combustível e manutenção encarecem continuamente. Para ela, o grande número de motoristas cadastrados também reduziu a renda média da categoria, forçando os profissionais a ampliar ainda mais a jornada.
O estudo da GigU mostra que, sem políticas de valorização e maior transparência das plataformas, esses profissionais seguem expostos a desgaste físico, mental e financeiro, tornando a profissão cada vez menos sustentável. A pesquisa do IBGE aponta ainda que apenas 25,7% dos motoristas de aplicativo recolhem contribuição para institutos de previdência, percentual que sobe para 56,2% entre os que não utilizam plataformas.
Para Kátia Silene, a saída passa pela regulamentação federal da atividade — debate que, segundo ela, ainda não chegou a um consenso em Brasília. O cenário reacende discussões antigas sobre transparência das plataformas, uso de algoritmos e necessidade de regulamentação. A reportagem do A Tarde entrou em contato com Uber e 99, mas não obteve retorno antes da publicação.







