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Emprego

Saúde sacrificada, família de lado: o dia a dia exaustivo de quem vive de app em Salvador

Depoimentos de motoristas e dados de pesquisa nacional revelam uma rotina de 12 horas ao volante que não garante nem cobrir os próprios custos da profissão.

Redação ChicoSabeTudo
30 de julho, 2026 · 08:07 3 min de leitura
Motorista de aplicativo ao volante em Salvador durante longa jornada de trabalho
Motorista de aplicativo ao volante em Salvador durante longa jornada de trabalho

Doze horas ao volante, três cirurgias em um ano e a família que mal vê o pai acordado. Essa é a rotina de Bruno Chagas, 44 anos, motorista de aplicativo há dez anos em Salvador. O que antes era uma jornada de oito horas virou um turno que se estende — e mesmo assim, segundo ele, nem sempre é suficiente para fechar as contas do mês.

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O caso de Bruno não é isolado. Um levantamento da GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, realizado com aproximadamente 1.500 motoristas de aplicativo de todo o país, mostra que apenas 7,2% conseguem atingir suas metas diárias dentro da jornada de trabalho que consideram ideal. Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, 44,8% dos entrevistados afirmam precisar trabalhar além do tempo desejado sempre que buscam alcançar seus objetivos financeiros, e 24,8% enfrentam essa situação na maior parte das semanas.

De acordo com o levantamento, em 2025 os motoristas de aplicativo trabalham, em média, 52 horas por semana no país. Em cidades como São Paulo, essa carga pode chegar a 60 horas. Em Salvador, o padrão se repete: há motoristas que trabalham até 12 horas por dia para alavancar o rendimento.

Bruno conta que sua meta diária é faturar R$ 300 — mas só o combustível consome cerca de R$ 100 desse total. O restante precisa cobrir parcela do veículo, seguro, manutenção, alimentação e despesas da casa. Para ele, o custo mais pesado e invisível da profissão é a manutenção do veículo, não a gasolina. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, ele estima que as plataformas retêm 45% do valor de cada corrida, chegando a 50% em alguns casos.

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As corridas por aplicativo ficaram, em média, 56,08% mais caras para os passageiros em 2025, de acordo com dados do IBGE. Mas quem trabalha dirigindo não comemora: o repasse desse aumento ao motorista está longe de ser proporcional, segundo relatos e estudos que escancaram um descompasso estrutural entre tarifa cobrada e remuneração final.

O impacto vai além do bolso. Bruno relata, segundo a reportagem original do A Tarde, que passou por três cirurgias de cálculo renal em 2025, resultado de horas sem conseguir parar para urinar durante o expediente. Problemas de coluna, ansiedade e convivência familiar praticamente nula completam o quadro. "É bom dia e boa noite", resume. Entre os motoristas entrevistados pela GigU, 92% estão endividados e 68% têm a renda para despesas básicas comprometida por essas dívidas.

A presidente do Sindicato de Condutores Autônomos de Aplicativos da Bahia (Sincaap Bahia), Kátia Silene, atribui o agravamento do cenário ao fato de que a tarifa-base nas principais plataformas permanece abaixo de R$ 6, enquanto combustível e manutenção encarecem continuamente. Para ela, o grande número de motoristas cadastrados também reduziu a renda média da categoria, forçando os profissionais a ampliar ainda mais a jornada.

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O estudo da GigU mostra que, sem políticas de valorização e maior transparência das plataformas, esses profissionais seguem expostos a desgaste físico, mental e financeiro, tornando a profissão cada vez menos sustentável. A pesquisa do IBGE aponta ainda que apenas 25,7% dos motoristas de aplicativo recolhem contribuição para institutos de previdência, percentual que sobe para 56,2% entre os que não utilizam plataformas.

Para Kátia Silene, a saída passa pela regulamentação federal da atividade — debate que, segundo ela, ainda não chegou a um consenso em Brasília. O cenário reacende discussões antigas sobre transparência das plataformas, uso de algoritmos e necessidade de regulamentação. A reportagem do A Tarde entrou em contato com Uber e 99, mas não obteve retorno antes da publicação.

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