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Cultura

Quarenta anos resistindo: grupo baiano estreia peça sobre a luta de quem vive para o teatro

A Companhia Baiana de Patifaria chega à sua décima montagem com "A Vida é um Cabaré", após mais de uma década sem peça inédita — e um passado recente que quase encerrou tudo.

Redação ChicoSabeTudo
29 de julho, 2026 · 18:43 3 min de leitura
Elenco da Cia Baiana de Patifaria em cena no espetáculo A Vida é um Cabaré, em Salvador
Elenco da Cia Baiana de Patifaria em cena no espetáculo A Vida é um Cabaré, em Salvador

Manter um grupo de teatro em Salvador por quatro décadas não é façanha pequena. A Companhia Baiana de Patifaria chegou a anunciar o encerramento das atividades em 2021, passou mais de dez anos tentando aprovar projetos em editais sem sucesso — e agora estreia sua décima montagem justamente no ano em que completa 40 anos de história. A peça se chama A Vida é um Cabaré e entra em cartaz nesta sexta-feira, 31 de julho, no Teatro Sesi Casa Branca, no Caminho de Areia, em Salvador.

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A temporada segue até 29 de agosto, sempre às sextas e sábados, às 20h. O projeto foi contemplado no edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e Prefeitura de Salvador.

A décima montagem da trupe é um espetáculo sobre a resistência das pessoas das artes frente às dificuldades do ofício, mais precisamente o universo do teatro. A trama se passa em "Utopia", onde duas irmãs herdam um teatro endividado e em decadência, chamado Teatro Pindorama — nome que, segundo o diretor Lelo Filho, faz alusão ao Brasil e ao cenário crítico que o país enfrenta. Do lado de fora, existe "Distopia", uma província onde teatros, bibliotecas e livrarias já foram fechados.

Lelo Filho, um dos fundadores da companhia, assina a dramaturgia ao lado de Vini Morais e também atua na peça. Ele interpreta Dalva, uma das irmãs, e enxerga na personagem muito de sua própria trajetória. Segundo declarações do artista ao jornal A Tarde, "minha personagem é essa representante da classe artística que luta até o fim para que o teatro não seja fechado. Ela vai dar a vida, o sangue, pelo espaço." O diretor também cobrou atenção dos gestores públicos à cultura: "Espero que os gestores, em todas as esferas do governo, possam olhar para esse assunto com mais dedicação."

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Em entrevista anterior, Lelo revelou que foram 11 anos tentando editais, desde a pandemia, passando por leis como Aldir Blanc e Paulo Gustavo, sem conseguir aprovar nada — e que o projeto "A Vida é um Cabaré" era embrionário desde 2014.

O contexto que a peça retrata não é fictício para quem vive o teatro baiano. Em 2025, uma forte campanha pelo não fechamento do Teatro Gamboa mobilizou artistas e conseguiu para o espaço o apoio do Centro Cultural Banco do Brasil e um show especial de Gilberto Gil para arrecadar verba para a manutenção do espaço. Pouco antes, um incêndio em janeiro de 2023 desativou a Sala Principal do Teatro Castro Alves, que só voltou a funcionar após cerca de três anos e meio de espera e um investimento de R$ 260 milhões.

A Cia Baiana de Patifaria iniciou as comemorações de quatro décadas em 11 de junho de 2026, tendo acumulado até então nove peças no repertório: Abafabanca, A Bofetada, Noviças Rebeldes, 3em1, A Vaca Lelé, Capitães da Areia, Siricotico, Fora da Ordem e Fanta & Pandora. A companhia foi fundada em 1987, por Lelo Filho e Moacir Moreno, junto com os amigos Eduardo Leal, Tom Carneiro e Fernando Marinho.

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A nova montagem se inspira em clássicos como o filme Cabaret (1972) e o musical Chicago, além de beber nas fontes do cineasta Pedro Almodóvar, usando o cancioneiro brasileiro para compor o ambiente da trama. O espetáculo é destinado a todas as idades, sendo recomendado para crianças a partir de 10 anos.

Para Lelo, segundo o A Tarde, celebrar 40 anos com uma nova peça viabilizada pela Fundação Gregório de Mattos representa muito mais do que uma data comemorativa: é a prova de que vale a pena resistir. "Estamos distantes dos grandes centros em que circula a maior parte da verba destinada à cultura. Nós vivemos em uma espécie de periferia", afirmou o diretor — e foi exatamente essa resistência que ele transformou em espetáculo.

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