As noites de terça-feira em Salvador ganham um brilho especial durante o verão. Na Praça das Artes Mestre Neguinho do Samba, no Pelourinho, estilos musicais se misturam e pessoas de todas as idades se encontram para celebrar um fenômeno que já virou tradição: a “Benção do Olodum”. Essa festa, que acontece há mais de três décadas, não é apenas um show; é uma imersão na cultura e ancestralidade baiana, liderada pela icônica Banda dos Tambores.
O Olodum é muito mais que um grupo percussivo. Fundado em 1979, ele reescreveu a história da música baiana ao criar o samba-reggae e foi um dos grandes responsáveis por levar a cultura local para o mundo. Além disso, o Olodum foi pioneiro em um conceito que hoje se espalha por todo o país: os ensaios de verão. A "Benção do Olodum" é a mãe de muitas festas que surgiram depois, servindo de inspiração para inúmeros projetos musicais ao redor do globo.
Uma Experiência que Atrai Fãs de Todo o Brasil
A "Benção do Olodum" acontece de forma quase ritualística, fielmente às terças-feiras, atraindo um público apaixonado que não se importa em curtir a festa em um dia útil. É um evento que oferece aos visitantes um verdadeiro gostinho do verão em Salvador, na Bahia. Recentemente, o portal acompanhou a terceira edição da festa, que contou com participações especiais da Timbalada, Alinne Rosa e a surpresa da banda Gilsons, mostrando a força e a capacidade do Olodum de unir diferentes talentos.
Quem escolhe passar a terça-feira vibrando com os tambores do Olodum geralmente tem uma história pessoal com a banda. É o caso de Lício Máximo, um carioca de 60 anos apaixonado pelo Carnaval, que expressou o profundo significado do grupo em sua vida:
Publicidade“O Olodum é a razão da gente ser. O Brasil foi descoberto aqui na Bahia, a gente sabe disso. Ter o Olodum como representatividade da nossa ancestralidade é um prazer. É um orgulho de ter o Olodum como uma banda do Brasil para o mundo, um privilégio. Onde o Olodum vai, a gente vai atrás.”
Lício ainda revelou sua estratégia para aproveitar as festas de verão tanto em Salvador quanto no Rio de Janeiro:
“Eu venho para Salvador desde 2005. E o que eu faço para conseguir curtir tudo, eu venho antes do Carnaval para Salvador, curto até pertinho do início da festa, às vezes fico aqui na quinta, e na sexta eu volto para o Rio para curtir a escola de samba lá até acabar o carnaval. E às vezes volto para pegar aqui o encontro dos trios lá na Quarta-Feira de Cinzas. Eu sou quase um baiano”, brinca.
A história de paixão se repete com a paulista Érika Quirino, de 40 anos. A dançarina descobriu o Olodum ainda criança e dançava escondida da família. Para ela, frequentar a Bahia e o Olodum é a realização de um sonho de infância:
“Eu sou dançarina desde pequena e meus pais, muito retirantes do Nordeste, me proibiram de dançar. Então eu dançava escondido. Então veio o balé, o jazz e veio o axé, e lá para a gente era a lamberóbica, o que para vocês é o Axé. Então, meu sonho de infância realmente era conhecer essa parte musical da Bahia. E eu só pude me permitir a conhecer o Olodum, de vias de fato, e a musicalidade da Bahia depois de adulta. Então, quando eu comecei a frequentar a Bahia, desde então eu não parei mais. E agora eu acho que eu sou uma investidora da cidade, que gira a economia. Eu acho que eu carreguei a minha infância e a minha adolescência para a minha fase adulta. E transcendo essa questão musical que existiu na Érica pequena para a Érica adulta.”
Outro folião fiel é o brasiliense Nelson Dias, de 59 anos, que vem a Salvador desde os anos 90. Ele afirma com convicção: “Se você vem à Bahia, você tem que viver o Olodum, o Olodum é diferente.”
A Conexão do Olodum com o Público e a Música
Para Narcizinho, vocalista do Olodum, a capacidade da banda de se conectar com um público tão diverso e manter a tradição dos ensaios por mais de três décadas é motivo de muita celebração:
"A Terça da Benção é maravilhosa, porque a gente vê não só pessoas daqui de Salvador curtindo a festa, mas o Brasil inteiro está aqui. O Olodum traz essa alegria para o nosso povo, é o amor no coração de cada um de nós. Não é só tocar. Para mim, é especial demais. Eu, como cantor do Olodum, agradeço muito por fazer parte dessa história."
Denny Denan, convidado da noite ao lado de Buja Ferreira, da Timbalada, também destacou sua ligação de longa data com o Olodum:
"Eu sou suspeito em falar porque eu estou na casa desde meus 10 anos de idade. Com 10 anos de idade eu vim para cá para cantar com o Olodum Mirim, já sou dessa casa já há um bom tempo, e também é a minha banda preferida. É uma honra muito grande estar aqui e viver isso ao lado dos meus parceiros."
Sidnei Souza, músico do Olodum há mais de 30 anos e figura emblemática nos ensaios, reforça o impacto duradouro do grupo:
“São mais de 30 anos do Olodum. É lindo ver tanta gente nova se encantando por essa história. O Olodum foi quem começou o samba-reggae e tem uma participação considerável na história da música baiana. Eu só saio do Olodum quando morrer.”
Com sua energia contagiante e sua mensagem de ancestralidade, o Olodum continua a ser uma ponte entre Salvador e o mundo, provando que sua música é, de fato, a voz da resistência e da alegria que pulsa no coração da Bahia.







